| Horizonte Progressivo Roger Waters O gênio criativo Floydiano chega ao Brasil |
Por Cláudio Fonzi
Crédito: Whiplash.Net
[...] através da turnê "In The Flesh", registrada no maravilhoso CD duplo homônimo, lançada em fins de 2001 também em formato DVD. Naquela época, a turnê havia se restringido aos EUA e ao Canadá, mas, devido ao estrondoso sucesso, foi organizada uma legítima megaturnê abrangendo os 5 continentes. Entre as dezenas de países escolhidos estava o nosso querido Brasil, palco de 4 apresentações - Rio de Janeiro (09/03), Porto Alegre (12/03) e São Paulo (14 e 15/03). Apesar de algumas alterações no elenco, o repertório se manteve basicamente o mesmo e, igualmente fundamental, a essência Floydiana repleta de musicalidade e emotividade idem. Vamos então a breve descrição dos principais fatos que ocorreram nas apresentações dos dias 09 (Rio) e 15 (São Paulo):
MÚSICAS
1.In The Flesh pt 2 (The Wall) - BRILHANTE em ambos os shows!!!! Uma emoção literalmente indescritível atingiu a grandíssima maioria dos presentes. Roger surgiu em um nível mais elevado que os outros e assim que iniciou a cantar, a histeria atingiu níveis impressionantes com a platéia cantando em uníssono.
2.The Happiest Days Of Our Lives
3.Another Brick In The Wall, Part 2 (The Wall)
Os efeitos sonoros existentes na 1ª causaram as 1ªs reações de espanto com a sonorização quadrafônica e o sistema Surround. "Another Brick..." levantou o público de forma extraordinária, mas a interrupção após o solo de guitarra não foi bem recebida (e nem poderia ser, pois foi algo meio inexplicável...)
4.Mother (The Wall) - Assim que Roger iniciou a cantá-la, as platéias deliraram, gritando visceralmente e a emoção fluiu por todos os cantos. A interpretação vocal de Katie Kissoon não foi tão maravilhosa quanto a existente no CD/DVD, mas foi magnífica e profundamente emocionante da mesma forma. O solo de guitarra foi belamente executado por Snowy White.
5.Get Your Filthy Hands Off My Desert
6.Southampton Dock (The Final Cut)
As representantes do mais controvertido disco da banda ficaram muito bonitas, com os arranjos vocais entre Roger e as 3 cantoras causando até arrepios de tanta emoção.
7.Pigs On The Wing, Part 1
8.Dogs (Animals)
Novamente, assim que Roger pegou seu violão e iniciou a cantar, tendo ao fundo a imagem da famosa fábrica da capa do disco, o delírio foi coletivo, principalmente na platéia carioca. A seguir, em "Dogs", aconteceu a mais extraordinária sequência de momentos hipnóticos e delirantes, desde o início ao energético violão, a excelente atuação vocal de Chester Kamen, as brilhantes performances dele e de White nas guitarras, a fantástica "invasão" de cães por todos os lados, a inigualável "viagem" Progressiva proporcionada por estes "cães" e os teclados de Harry Waters e Andy Wallace até o magistral retorno da banda, a entrada triunfal de Roger nos vocais, os belíssimos solos de guitarra e o magnífico e visceral refrão cantado por quase todos em cena.
Detalhe importante é o de que a qualidade sonora atingiu nesta música um ponto que considero o máximo de perfeição possível. Aconteceu no trecho instrumental dos "cães" e dos teclados, no show de São Paulo, onde o volume sonoro estava bem maior que no Rio e onde a massa sonora penetrava na alma de qualquer pessoa, mas sem ferir os ouvidos em momento algum.
9.Shine On You Crazy Diamond, Parts 1-5 (Wish You Were Here) - Mantendo a sequência puramente Progressiva, SOYCD emocionou em todos os sentidos, desde a fantástica introdução de guitarra (executada por S.W) seguida pela apoteótica entrada da banda até o belíssimo refrão, cantado em emocionante uníssono com a platéia.
Momento especialmente belo foi quando surgiu na tela a carismática e gigante imagem do inesquecível SYD BARRETT.
Na apresentação carioca, ocorreu incrível falha de sonorização, com o solo de sax de Norbert Stachel desaparecendo por completo, gerando situação realmente tragicômica, pois Norbert se ouvia perfeitamente e o executou integralmente (estando de olhos fechados na maior parte) sem nada perceber.
10.Welcome To The Machine (Wish You Were Here) - Pérola esquecida pela banda de Gilmour, é uma das composições floydianas de maior força , tanto em termos de conteúdo da letra quanto em termos de efeitos sonoros, forma como a letra e refrão são cantadas e toda a parte instrumental propriamente dita.
Foi muito bem executada e os efeitos atingiram grande impacto.
11. Wish You Were Here (Wish You Were Here) - A despeito da voz de Gilmour ter feito falta, a execução foi muito boa, com novo brilho de S. White, desta vez no violão inicial.
Ambas as platéias a cantaram, palavra por palavra, proporcionando belíssimo e emocionante momento.
12.Shine On You Crazy Diamond, Parts 6-9 (Wish You Were Here) - Única música não presente no CD/DVD (a não ser pequenos trechos), foi uma das mais bem executadas em ambas as noites. Novamente, o refrão foi delirantemente cantado, principalmente pela platéia carioca.
INTERVALO
13.Set The Controls For The Heart Of The Sun (A Saucerful of Secrets) - Outra preciosidade resgatada, foi a mais antiga composição apresentada, com nada menos que 34 anos de vida. Seu arranjo bastante modificado gerou algumas polêmicas, mas, a meu ver, foi igualmente excelente. Perdeu um pouco do clima fantasmagórico original mas ganhou em peso e intensidade sonora. A presença do sax desagradou a maioria dos puristas e concordo que foi um acréscimo realmente improdutivo.
14.Breathe (In The Air)
15.Time (Dark Side Of The Moon)
Delírio absoluto!!!!! Ambas as platéias cantaram e gritaram do início ao fim!!! Os relógios de "Time" e a fantástica sequência instrumental posterior (com excelente atuação de Graham Broad) proporcionaram o momento de maior expectativa e ansiedade dos shows, liberada em grande explosão de vozes ao se iniciarem as históricas palavras "Ticking Away...".
Toda a parte instrumental foi brilhante, com grande destaque também para o perfeito solo do guitarrista Chester Kamen, fazendo com que a saudade de Gilmour fosse definitivamente esquecida pela maioria.
16.Money (Dark Side Of The Moon) - a mais controvertida música do disco do prisma agradou a todos, desde seu início, com as incríveis sonoridades das caixas registradoras. Execução instrumental primorosa e backing vocals perfeitos.
17. 5:06 AM - Every Stranger's Eyes (The Pros and Cons of Hitch-Hicking)
A partir daí, iniciou-se o mais controvertido período dos shows, quando foram apresentadas cinco músicas da carreira solo de Waters. Desconhecidas pela grande maioria das pessoas presentes, acabaram conquistando muitos admiradores, que se viram atordoados pela imensa beleza de todas.
Assim sendo, com esta única representante de "Pros & Cons..." (seu 1º album após "The Final Cut"), iniciu-se a sequência mais introspectiva dos shows.
18.Perfect Sense part 1
19.Perfect Sense part 2 (Amused to Death)
Com destaque absoluto para as interpretações vocais, teve como pontos máximos a maravilhosa e inesquecível atuação da cantora P.P. Arnold e o inacreditavelmente emocionante clímax final, com a belíssima explosão visual (no fundo do palco) e a mais belíssima ainda explosão vocal, multiplicada infinitas vezes pela fantástica amplificação e distribuição sonora.
25.Comfortably Numb (The Wall)
20.The Bravery Of Being Out Of Range (Amused to Death) - Iniciada de forma excessivamente próxima a "Perfect Sense", corta bastante o delírio provocado anteriormente. Apesar disso, por possuir um clima bem "pra cima" e um ótimo refrão, segura bem a platéia.
21.It's A Miracle (Amused to Death) - Em termos introspectivos, é o ponto máximo do espetáculo. A beleza melódica e a suavidade dos climas vocais e instrumentais remetem ao melhor estilo floydiano (inclusive nos detalhes de guitarra e teclados), hipnotizando completamente a platéia.
Pequeno detalhe cômico ocorreu nas 2 noites, quando Waters cantou o trecho "One Brazilian grew a tree..." (dizendo de forma extremamente irônica uma coisa lamentavelmente verdadeira) e a platéia aplaudiu sem ter qualquer idéia do significado da frase perante o contexto da letra.
22.Amused To Death (Amused to Death)
Encerrando a sequência de músicas solo, o fêz de forma igualmente brilhante. Novamente, os destaques ficaram nas interpretações vocais e na beleza das melodias
23.Brain Damage (Dark Side Of The Moon)
24.Eclipse (Dark Side Of The Moon)
O retorno ao delírio coletivo!!!! Histeria e felicidade totais!!!!
No show carioca, houve um incrível erro de Waters (entrou com um verso errado), mas que foi imediatamente concertado e em nada empanou o brilho geral.
25.Comfortably Numb (The Wall)
A apoteose final!!!! Uma das músicas mais perfeitas para se encerrar um grande show!!!
O delírio de exaltação se mistura ao transe absoluto durante a execução dos magistrais solos de guitarra de White e de Kamen, executados na parte superior do palco.
Um detalhe importante é o de que estes solos foram executados com absoluta perfeição somente na apresentação do Rio, pois em São Paulo, S.W. demorou a chegar ao piso superior e Kamen teve que entrar meio sem jeito, o que causou certa demora em entrarem no conjunto correto.
BIS
26.Each Small Candle (Música Nova) - Belíssima canção, já era conhecida por alguns, por constar do CD "In The Flesh", mas, para os que não a conheciam, as reações foram bem diversas, tendo surpreendido positivamente a muitos e decepcionado a outros. De certa forma, seu caráter altamente introspectivo funciona como um anti-clímax, mas sua inserção no final do show se deve a sua belíssima letra (reproduzida em letras gigantes na tela de palco), proporcionando que o espectador guarde em sua mente aquelas denunciadoras palavras.
Obs.: Nos shows dos dias 11 e 14, a música acima não foi executada, sendo substituída pela realmente inédita "The Flickering Flame".
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
a - QUALIDADE SONORA
Indiscutivelmente, "In The Flesh Tour", representou o máximo de perfeição sonora já vista (e ouvida) no Brasil. A despeito de estar com volume um pouco baixo no início da 1ª parte do show carioca, tornou-se impecável logo em seguida na 2ª parte. Em SP, foi absolutamente perfeito em todos os aspectos possíveis e imagináveis, pois contou com número maior e mais bem distribuído de caixas de som.
Detalhe importante é que os efeitos quadrafônicos e de Surround são pouco perceptíveis nos terrenos muito próximos ao palco, mas fantasticamente perceptíveis em todas as outras áreas, mesmo nos pontos mais distantes.
b - MÚSICOS E CANTORES
Destaque absoluto para P.P. Arnold (vocais), Chester Kamen (vocais e guitarras) e Snowy White (guitarras). Graham Broad (bateria), Harry Waters (teclados), Norbert Stachel (sax e outros sopros), Katie Kissoon e Linda Lewis (vocais) também foram muito bem. Andy-Fairweather Low (baixo, guitarra, violão e vocais) e Andy Wallace (teclados) não comprometeram, mas pouco destaque tiveram.
Roger apresentou-se muito bem, com ótima atuação vocal (apesar de alguns pequenos trechos terem se assemelhado muito a um play-back...) e muita simpatia. Disse "obrigado" muitas vezes e atingiu o máximo de sua felicidade e emoção ao agradecer intensamente à "Fantastic Audience" carioca, com os olhos marejados e a um ponto mínimo de permitir que as lágrimas escorressem.
c - PRODUÇÃO VISUAL
Outro aspecto de qualidade extraordinária, teve seu grande destaque no imenso telão de 23x11 situado no fundo do palco. A sucessão de belas imagens foi constante por praticamente todo o show, geralmente reproduzindo temas ligados às músicas e sempre com perfeita definição de imagem.
d - PÚBLICO
Os 35.000 pagantes presentes no Rio de Janeiro foram absolutamente calorosos em todos os instantes, acompanhando cada música, fosse cantando, gritando, aplaudindo ou assoviando. A proximidade deste público com o palco proporcionou emocionante interação entre todos, fazendo com que a temperatura insuportável (em nenhum momento aplacada com qualquer tipo de líquido para a platéia) fosse vencida amplamente.
Em São Paulo, a grande distância entre artistas e público impossibilitou qualquer maior interação, mas, mesmo assim, boa parte da platéia acompanhou e aplaudiu incessantemente.
Detalhe adicional foi o de que boa parte da platéia carioca era formada por não-cariocas. Eram pessoa dos mais diversos municípios do estado e do país, mas com a grande maioria oriunda de Minas Gerais, que, devido a sua imensa paixão musical, foram dos que mais aplaudiram e deliraram com tudo que aconteceu.
e - ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURA BÁSICA
No show carioca, a pontualidade foi quase britânica (apenas 15 min. de atraso), o que fêz com que centenas de pessoas chegassem atrasadas. Em São Paulo, o atraso foi bastante grande, em virtude do fortíssimo temporal ocorrido algumas horas antes. Este temporal prejudicou a muitas pessoas e, entre outras consequências, fêz com que a passagem de som fosse cancelada.
Em termos organizacionais, o show do Rio fluiu muito bem, sem qualquer tipo de violência ou confusão. Como não havia lugares marcados, cada pessoa escolhia onde iria ficar e ali se instalava. Já em São Paulo, as cadeiras numeradas não foram respeitadas de nenhuma maneira, o que gerou grande insatisfação em muitas pessoas.
Em termos de limpeza, o resultado foi satisfatório. Em outros termos, porém, a situação foi crítica, tais como a necessidade de se ir ao banheiro, onde a demora nas filas era algo desesperador e os serviços de fornecimento de bebidas e alimentos igualmente lerdos e com preços exorbitantes.
Finalizando, os preços absurdamente astronômicos cobrados pelos ingressos em São Paulo impediram que o sucesso fosse similar ao ocorrido no Rio e em P. Alegre, o que acabou gerando imensos e constrangedores espaços vazios nos setores de gramado.
RESUMO FINAL
Finalmente, após 35 anos de espera, o Brasil pôde assistir ao vivo a apresentação de algumas das músicas da mais criativa e revolucionária banda de Música Popular de todos os tempos. São obras que embalaram gerações em 3 décadas completas e mais pequenos períodos de outras duas.
Felizmente, após estes inesquecíveis shows, mais uma geração se apaixonará por tudo que alguns "críticos" ignóbeis cismam em dizer estar morto e sepultado - o Rock Progressivo - e, se Deus quiser, o Brasil entrará DEFINITIVAMENTE na rota de todos os grandes shows internacionais, independente de desvalorizações cambiais e atos insanos do Governo.
Como últimas palavras, dirigidas aos famosos "críticos de plantão" que certamente dirão que o que assistimos não foi o legítimo PINK FLOYD, eu digo que, em parte, até concordo, pois as ausências de Gilmour e Wright sempre afetarão meu coração, mas, o que pudemos presenciar foi algo além da própria esfera Floydiana, pois as 6 obras-primas de sua carreira solo que foram executadas jamais seriam tocadas em um simples show da banda.
Tais músicas, com letras de grande complexidade e contundente sinceridade, interpretadas com altíssimas doses de emoção, tem sido constantemente louvadas em todas as partes do mundo, o que tem ajudado grandemente a torná-lo um dos mais inesquecíveis espetáculos musicais de todos os tempos.
"Can't You See...
It All Makes Perfect Sense...
Referência: http://whiplash.net/especiallist.mv?rec=180