Tempos
Uma nuvem cigana
anunciava aos setenta
os maus tempos vindouros.
Nos oitenta o limite, a luta da fome
dizer tantas vezes até formar um nome.
O nome daquele que virá depois,
de pés descalços correrá no riacho
as águas serão límpidas como os olhos da paz
nascendo agora, ontem, amanhã, tanto faz.
A espreita
Eram longas aquelas noites do inverno do meu ser
E os dias eram diáfanos
como asas de borboleta.
Então na sombra do céu eu repousava da tormenta
enquanto aguardava o fim da constelação.
Enquanto filosofamos
Tomamos coca-cola na esquina
e começa a amanhecer no Japão.
A beira do cais
...te tomei em goles matando a sede
E a solidão não me quis mais.
Pensei na estranheza de um amor tão perfeito
Tão puro e sem jeito
Sem dose exata,
Medida, porção.
Juntei meus pedaços, uni aos teus
E bailamos na luz.
No dorso da lua, minh'alma nua
Completa ilusão
De que somos um só
Estrada e pó, verbo e criação
Ainda juntos agora no adiantado da hora
Como o destino quiser
Dormi maquiada, acordei nos teus braços
Me sentindo mulher.
Outra história
Todos os dias Abel cantava
Abel sorria e era feliz
Andando nas estradas
Lidando nos campos
Abel vivia sua devoção
Abel perfeito. Abel quase santo.
Dele todos esperavam a salvação
Abel sabia de sua sina
A estrela guia sempre a lhe seguir
Abel de olhos claros e boca bonita
Com mulheres querendo o servir
Abel orgulho, devoto divino
Com a vida sempre dizendo sim
Um dia cansado Abel desiste
E naquela noite mata Caim. |
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Possibilidade
Acordar de manhã
Sentindo a cabeça doente
e lembrar com tristeza um sério desequilíbrio mental
Na janela passam nuvens
Na cozinha os sons matinais
Na cama, respiração presa,
Cogito a possibilidade de viver.
Viagem chilena
(ou alucinação do branco dos Andes pela manhã)
Uma rajada de vento sobrevoou os Andes
e marcou na neve branca
Os caminhos da civilização.
O frio cortante cortou o grito na garganta
sem que os espasmos dos policiais deixassem a roseira florir.
As fardas, misturadas aos artistas na praça
tiram do tom o cancioneiro
que fala de amor.
Os espinhos ferem Neruda na Isla Negra.
No céu, Santiago em preto e branco
Em cada esquina resiste a cor chilena
El condor assiste impassível
Mais um impasse da revolução.
Adivinhamos que Allende não deu certo
Enquanto a espreita espera meu coração.
Tormenta
Recolher a roupa do varal
e espiar da janela o mundo em ebulição.
Alma gêmea
I
Chorar teu choro
Sorrir teu riso
Perder o siso
A vida a razão.
II
A água da chuva
O corpo molhado
Nós dois lado a lado
Ternura sem par.
III
Querer teu desejo
Sonhar teu sono
Esperar o outono
Fruto da estação. |
IV
Acreditar que voltas
Dançar sob a lua
Ser sempre tua
Senhora de mim.
V
Saber a verdade
Amar o poeta
Entrar nesta festa
Parir sem dor.
VI
As certezas são tantas
Que invadem o mundo
Abismo profundo
Que nos une no amor.
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