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Marivânia Silveira Farias

   
Nasci em um janeiro de horário de verão. Talvez daí a forte ligação com a estação do sol, com as águas e o mar, com o céu e com a lua. 
     Depois disso foi só viver, seguindo mais o coração que a razão. As vezes desconfio que estou aqui por engano, tal minha perplexidade diante das coisas do mundo. Já em relação aos seres humanos, perdi há muito a capacidade de me espantar. 
     Entre a paixão pelo meu companheiro de todos os dias, regada pelo som de Chico e Caetano, fui juntando sentimentos e emoções que me fizeram assim... simplesmente. 


Tempos

Uma nuvem cigana 
anunciava aos setenta
os maus tempos vindouros.
Nos oitenta o limite, a luta da fome
dizer tantas vezes até formar um nome.
O nome daquele que virá depois, 
de pés descalços correrá no riacho
as águas serão límpidas como os olhos da paz
nascendo agora, ontem, amanhã, tanto faz. 


A espreita


Eram longas aquelas noites do inverno do meu ser
E os dias eram diáfanos 
como asas de borboleta.
Então na sombra do céu eu repousava da tormenta
enquanto aguardava o fim da constelação.
Enquanto filosofamos
Tomamos coca-cola na esquina
e começa a amanhecer no Japão. 


A beira do cais

...te tomei em goles matando a sede
E a solidão não me quis mais.
Pensei na estranheza de um amor tão perfeito
Tão puro e sem jeito
Sem dose exata, 
Medida, porção.
Juntei meus pedaços, uni aos teus
E bailamos na luz. 
No dorso da lua, minh'alma nua
Completa ilusão
De que somos um só
Estrada e pó, verbo e criação
Ainda juntos agora no adiantado da hora
Como o destino quiser
Dormi maquiada, acordei nos teus braços
Me sentindo mulher. 



Outra história


Todos os dias Abel cantava
Abel sorria e era feliz
Andando nas estradas
Lidando nos campos
Abel vivia sua devoção
Abel perfeito. Abel quase santo.
Dele todos esperavam a salvação
Abel sabia de sua sina
A estrela guia sempre a lhe seguir
Abel de olhos claros e boca bonita
Com mulheres querendo o servir
Abel orgulho, devoto divino
Com a vida sempre dizendo sim
Um dia cansado Abel desiste
E naquela noite mata Caim. 
  Possibilidade

Acordar de manhã
Sentindo a cabeça doente
e lembrar com tristeza um sério desequilíbrio mental

Na janela passam nuvens
Na cozinha os sons matinais
Na cama, respiração presa,
Cogito a possibilidade de viver. 



Viagem chilena

(ou alucinação do branco dos Andes pela manhã)

Uma rajada de vento sobrevoou os Andes
e marcou na neve branca
Os caminhos da civilização. 

O frio cortante cortou o grito na garganta
sem que os espasmos dos policiais deixassem a roseira florir. 

As fardas, misturadas aos artistas na praça
tiram do tom o cancioneiro
que fala de amor. 
Os espinhos ferem Neruda na Isla Negra.

No céu, Santiago em preto e branco
Em cada esquina resiste a cor chilena
El condor assiste impassível
Mais um impasse da revolução.
Adivinhamos que Allende não deu certo
Enquanto a espreita espera meu coração. 


Tormenta

Recolher a roupa do varal
e espiar da janela o mundo em ebulição.


Alma gêmea
I

Chorar teu choro
Sorrir teu riso
Perder o siso
A vida a razão.
II
A água da chuva
O corpo molhado
Nós dois lado a lado
Ternura sem par.
III
Querer teu desejo
Sonhar teu sono
Esperar o outono
Fruto da estação.

IV
Acreditar que voltas
Dançar sob a lua
Ser sempre tua
Senhora de mim.
V
Saber a verdade
Amar o poeta
Entrar nesta festa
Parir sem dor.
VI
As certezas são tantas 
Que invadem o mundo
Abismo profundo
Que nos une no amor.
Direitos reservados a autora Marivânia Silveira Farias

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