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Luís Álvaro Simão
Quando nasceu, uma constelação de aquário o abençoou. Acumula sonhos de terceira dimensão e assiste a vida sem jamais separar-se da poesia. 
Faz prosas nas madrugadas de inverno, regadas a vinho e estrelas. Chora a dor do menino ferido e compreende a verticalidade do mundo adulto. 
Empresta sonhos a olhos oblíquos e distribui carícias de conotação universal. 
Hoje, passeia à passos soltos pelas avenidas transversais, como se estivesse saindo de um suntuoso baile de carnaval. 


MARIA

Ri, Maria, ri
Do jeito que deixaram 
A natureza linda
Que agora já finda
Num derradeiro sonho.

Rasgue, Maria, rasgue
A capa da revista
E as folhas do jornal
Quebrei televisor
Joguei tudo no chão
Pois tudo tem um fim. 

Vem, Maria, Vem
E vê, Maria, vê
Se é possível viver... assim
Vem, Maria, vem
Vem rir da romaria
Dos débeis decididos
Dos corações aflitos
Somando seus vinténs.

Crê, Maria, crê
Que a luta terminou
Que a bomba feiticeira
Bem perto nos vigia
Que o golpe é fatal
E mata o bem e o mal
E depois a neve fria
Vai chegando mansamente
Se instala eternamente 
No teu corpo de Maria

Muda todo este clima!

Vem, Maria, ensina
A lição a estes profanos
Diga a eles e aos romanos
Aos russos - americanos
Ao mais negro africano
Que busquem na poesia
O pedido de perdão

Vem, Maria, vem
E vê, Maria, vê
Se é possível viver.


ABSOLUTAMENTE
Repensando o Eu em Pessoa


Eu saí para ver a lua
Estava lá como sempre
E vi somente a lua
Nada senti
Nada notei
Mentem os poetas
Os que dela falam,
Quando lhe dão adjetivos
Lhe chamam complemento
Suspiram interjeição.
Hoje saí para ver a lua
E reparei que principalmente nesta noite
As estrelas também estão lá
Incrível, cada uma um universo
Um universo completo em si mesmas
Como a lua e eu também
Entendi, então, que há um universo
Sozinho
Intransponível
Invulnerável
Completo
Em todas as coisas
Em tudo que os meus olhos
Os meus sentidos
A minha imaginação
Diz existir
Compreendi pela primeira vez
O que, por certo, a flor e o vento
Compreenderam desde a sua concepção
E me senti mais solitário
Afirmativo-interrogativo
E observei que não posso completar
Ninguém - nem mesmo a mim
Nem mesmo o olhar é complemento
Só um eu há
Só um eu é
Absolutamente só. 
  QUERMESSE

De novo a quermesse'
a roda gigante
a gente que passa
as moças que riem
comendo pipocas
os moços que bebem
- Estão mais sérios, mais leves-
tontinhos por elas
tem jogo de dados
(eu? fico de lado)
um bingo de avião
pra bem longe daqui
foguetes no céu
a banda fagueira
tudinho pra nós
eles se olham
se sentem, se querem
só ela não olha pra mim
minha cabeça
minha tristeza
uma roda gigante


FUNERAL DA NATUREZA

Estão me matando pouco a pouco
Que vergonha que eu sinto nesta hora
Um fel percorre os rios da minha alma
E uma dor mortal tritura minha cabeça
Enxovalharam toda a natureza
E eu aqui no confortável gabinete-lei
Dei passagem, dei licença a essa gente
Um assassinato bruto e vagaroso
Um golpe mesquinho, mas fatal
Uma trapaça sorrateira e suja
Num rito cruel de funeral.

Sangraram a indefesa natureza-mãe
Que vergonha que sinto nesta hora
E permaneço aqui no confortável gabinete-lei

O progresso constrói botequim a beira-mar
E lhe batizam com nome natural-aumentativo
E eles bebem wisky na ante-sala do dia final

Lixos e dejetos de embalagem multinacional 
Atirados na larga lagoa azul
Eles pensativos nos consultórios verminoses
Agonizando como os filhos do mar e dos rios
Inseticidas, tóxicos, venenos e outros diabos
Nas antigas lagoas e nos lindos rios
E eles ? - olho na TV torcendo pela seleção.

Colocam uma máscara agourenta e fétida
Na virginal boca das furnas ancestrais
Roubando-lhe a graça e o hálito natural
E eles nas salas-de-aula aprendendo geo-mania
Estupefatos com as últimas notícias da ciência
Enfim destrõem a fauna e a flora
Movem as duns para levantar seus palacetes. 

Onde estão os pássaros: o ferreiro, 
pica-pau, coleirinha, caga-sebo e bem-te-vi
Para onde vôou o gaipava, o gaturamo
Com quem andam conversando os periquitos
E as tagarelas tirivas e baitacas
Em que árvores fazem piruetas os macaquinhos
E os olhos das crianças vagueiam pelos desertos
Espreitando uma imensa saudade que se foi
E nós, passivos, assistindo o cruel funeral da natureza. 
Direitos reservados ao autor Luiz Álvaro Simão

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