SERENATA
Quase vem já a alva
Sua estrela já desponta
Espalha-se o aroma da malva
Nos campos, de ponta a ponta.
A lua, de madrugada,
E infeliz quem não viu
Eu piso a relva molhada,
Tão molhada de rocio.
Por fim, chego a janela.
Lá dentro, minh' amada sonha
Sonha que ainda é mais bela
Sobre bordada fronha.
Da viola tomo, então,
E dela brotam, cristalinas,
Notas cheias de paixão
Como de uma fonte divina.
Amar e sofrer nesta vida:
Eis minha sina, deu-ma Deus.
Vinha o sol, veio a despedida
E lágrimas na canção do adeus.
ACALANTO
Dorme, dona do silêncio
Que eu fico a teu lado
Velando teu sono descuidado.
Dorme tranquila, moça louca
Que eu escuto
O que diz tua muda boca.
Dorme, senhora impudica
Que, mesmo coberta, desnuda fica
Tua carne pecadora.
Dorme que, como se um sonho fora,
O que vai dentro de ti perscruto
Mergulhado em pensamento néscio.
BAGAGEM
Um homem e sua pasta
Vão vagando nas ruas:
Seguem em frente,
Dobram à esquerda,
Param diante das pontes.
Um homem e sua pasta
São vistos pelos passantes
Como um indivíduo estranho
Que carrega estranha bagagem
Que pode ser seu destino.
Enquanto a lua se esconde
Por trás da nuvem errante,
Enquanto que todos vivem
Suas pequenas-grandes vidas,
Passam quase desapercebidos
Um homem e sua pasta
Ambos cheios de sonhos.
TRISTEZA
Quando das ruas me evado
Quando de meu céu o sol apago
Em escura caverna peno meu fado
Todos os pecados que cometi pago.
Quando a cantar prefiro estar mudo
Quando meu sorrir faz-se amuado
E porque cansou-me tudo
E a vida alegria não me dá - só desagrado ...
E, assim, quedo-me triste e só
Consumindo minh'alma na desgraça
Curtindo na minha sorte o dissabor
Mas não desejo que me tenham dó
Ou que me queiram fazer ver da noite a cor
Porque a dor como vem passa. |
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ALUMBRAMENTO
Tua luz vem da rua
E eu não posso deixar de a ela me expôr
Mais clara do que a lua
Muito mais linda em sua cor.
Teu silêncio se introduz nesta casa
E mais parece uma canção
Forma um lago de água rasa
Que banha meu coração.
Será dos olhos a invulgar claridade?
Será da boca semelhante música?
Será mentira ou realidade
O alumbramento que me fica?
De que vale tanto supor:
Tudo se explica no amor.
MINHA CASA
Tenho uma casa
Com uma janela aberta ao vento.
Noutra, vejo o movimento
Da rua, onde não passa ninguém.
Tenho uma casa que fica
No mais alto de uma colina
Que a fiz assim tão alta
Na esperança de que me viesse
Beijar uma estrela.
Tenho uma casa
Com sótão e porão
Onde guardo uma gaita e um violão
Que os fantasmas costumam tocar
Nas noites de chuva.
Tenho uma casa,
Mas não sei onde ela fica
Que cor é ou quem a habita
Que é uma casa encantada
Que vive iluminada
Pelos vaga-lumes.
FIGURA LINDA
A tarde finda bem devagar
E tua figura linda a atravessar
A rua movimentada
Busca a outra margem,
Ou busca o nada?
Atarantada, passadas largas,
Serão amargas as palavras
Que no coração cavas
E que tua doce boca balbucia?
Vais - como diria ...? - endiabrada!
Dentro desse angélico corpo branco
Que à lua - que já desponta -
Rouba a alvura.
A noite bem devagar
Tua figura linda sumiu no mar
Das pessoas que se vão pela calçada,
Na outra margem. Buscam o nada?
LEMBRANÇA
Vago trato de carícia
Que me destes por minúcia
Lembro do que disseste
Como afagasse pelúcia....
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