| CARTA A UM JOVEM PESQUISADOR |
Iniciando-te
na pesquisa, talvez já com uma bolsa de iniciação
ou na expectativa de obtê-la, convido-te a uma
breve reflexão. Em seu transcorrer, serão feitas
sugestões de leituras sobre esta arte peculiar com
que passas a te ocupar. Não estranhes a expressão
"arte peculiar", pois logo verás o quanto de
criatividade, sendo de oportunidade e paixão, além
de preceitos metodológicos e hipóteses, o sucesso
nestas lides requer, embora de início a
observância destes dois últimos ingredientes possa
ser acentuada como seu requisito essencial. Esta
exigência faz parte, como veremos, da dinâmica do
processo que passas a integrar. A que poderá
servir uma tal reflexão? Se fores pesquisador na
área de Filosofia, reflexões como esta, sobre a
natureza e condições de possibilidade da pesquisa
científica, seu alcance e limitações, temáticas de
análises filosóficas, podem ser parte da "rotina"
de trabalho. Mas, seja qual for tua área de
atuação, poderás nela encontrar alguma utilidade.
Pois a atividade na qual passas a emprenhar-se tem
sido objeto destas análises, que refletem sobre
sua natureza e condições de possibilidade, de modo
que poderás, nesta reflexão, encontrar muito de
tua vivência como pesquisador, melhor
compreendê-la e, quem sabe, desempenhá-la,
conformando-te com certas limitações e ousando, a
seu tempo, transgredi-las, num jogo cuja medida
não está dada num estrito preceituário prévio.
Poderás ver que, nesta tarefa, mesmo naqueles
aspectos muitas vezes entediantes, repetitivos, de
observância de regras que te são "dadas" (como
quando deves cumprir exaustiva e quase que
mecanicamente minuciosos procedimentos de
laboratório), há igualmente espaço significativo,
que poderá ser conquistado como maior ou menor,
para "tua" atuação. Disse um notável filósofo,
Kant, que, embora o entendimento possa instruir-se
e formar-se por regras, o juízo é um dom
particular que se exerce, mas que não se pode
aprender - aquilo cuja carência nenhuma escola
pode suprir1 . Ampliando-se a visão do espaço para
o necessário julgar, que a própria aplicação das
regras demanda como espaço em que se insere a
contribuição individual, aí abre-se igualmente a
perspectiva para a conquista de teu espaço
criativo (para, quem sabe, perseguires, na
formulação de tuas hipóteses, conjecturas, aquela
suspeita de que as coisas poderiam estar ocorrendo
de um outro modo, diverso do esperado segundo o
delineamento inicial do projeto com o qual tu e
teu grupo vêm trabalhando). Refletindo sobre este
duplo aspecto a ser vivenciado no processo de
pesquisa, constatarás, na atividade que passas a
desempenhar, uma tensão entre dois fatores que se
remetem mutuamente. De um lado, está o papel
regular da comunidade científica enquanto tal, com
seus valores, procedimentos, concepções básicas
acerca de qual seja a realidade a investigar e de
como deva ser a ciência que a investiga, padrões
de fenômenos, problemas e soluções - ingredientes
que, em sua rede de relações, ditam diretrizes que
regerão a pesquisa a ser desenvolvida numa
determinada área. De outro lado, está o modo, às
vezes conflitante com os padrões do grupo, como
são aplicados estes valores e procedimentos e/ou
as alterações naquelas concepções básicas que
caracterizam o elenco de crenças desposadas pelo
grupo acerca da realidade a investigar e das
condições de sua investigação. Este segundo fator
coloca em cena o papel que pode ser exercido, como
agente de mudança, pelo pesquisador individual e
por um grupo inicialmente restrito de
pesquisadores, por força de influências tais como
tipo de educação científica prévia recebida,
origem em diferente área de pesquisa (aí, por
exemplo, a importância de receber pesquisadores
com formação em diferentes centros), preferências
pessoais e outras condições circunstanciais. A
efetivação de uma mudança dependerá, contudo, da
capacidade de obtenção de uma adesão crescente dos
membros da comunidade científica relevante ao novo
modo de ver e de conduzir a pesquisa. A
prevalência dos padrões do grupo sobre as escolhas
individuais garante que a comunidade não ceda ante
qualquer novidade, desviando o rumo da pesquisa
sem aprofundá-la. Há que medir os passos e
perseverar antes de abandonar de vez um projeto -
o que, de qualquer modo, não acontecerá sem a
presença de novas diretrizes para a pesquisa. É
parte da pedagogia científica, que deves estar
vivenciando em teu trabalho, o entrar para a
pesquisa entrando para o grupo, para um projeto,
ou, mesmo que trabalhando apenas com teu
orientador, para uma dada "tradição", ainda que
recente, ou para o convívio com que vem de uma
experiência de "tradição" de pesquisa, embora em
outras linhas. Um aprofundamento será condição
essencial para uma avaliação dos alcances e
limites das diretrizes que regem uma dada
pesquisa. De outra parte, o espaço para a
ocorrência de aplicações e concepções básicas
diferenciadas garante a possibilidade de mudança
na ciência, em suas teorias e nos rumos da
pesquisa, quando o novo for capaz de mobilizar a
adesão da comunidade relevante. Mas, antes de
propor, com possibilidade de êxito, mudanças nas
regras do jogo, há que saber jogá-lo - aprendê-lo
e revelar perícia, ou contar com o respaldo de
quem já tenha firmada a reputação, entre os seus
pares, de um hábil jogador! Thomas Kuhn, em A
Estrutura das Revoluções Científicas (1977),
aborda esta temática, enfatizando o papel do
comprometimento da comunidade científica com uma
rede de ingredientes - crenças, valores,
critérios, procedimentos, padrões de problemas e
soluções, instrumentos - que perfazem o que Kuhn
chama de paradigma, referencial para sua análise
do que seja ciência e cuja vigência caracteriza os
períodos que chama de ciência normal. Estes seriam
aqueles períodos em que a pesquisa aprofunda-se,
norteada por sólidas e tacitamente aceitas
diretrizes, ditando os padrões de problemas e
soluções a serem observados (Kuhn também refere-se
a paradigmas como exemplares compartilhados). A
mudança de paradigma, mudando padrões de problemas
e soluções, critérios, concepções orientadoras e
mesmo procedimentos e instrumentos, é o que Kuhn
chama de revolução científica. Trata-se de uma
mudança nos fundamentos que regem a pesquisa e não
apenas de alternativas de trabalho ou de versões
possíveis no interior das delimitações impostas
por um mesmo paradigma. Operada uma revolução,
instala-se um novo período de ciência normal,
regido por um novo paradigma, com suas diretrizes
próprias para a pesquisa a ser realizada. Já
pensaste sobre a natureza do projeto em que te
encontras engajado? Qual seu paradigma orientador
- ou não cabe aí falar em paradigma? Há algo como
um paradigma na tua área de atuação? Estas
questões, segundo Kuhn, não seriam lançadas caso o
trabalho estivesse sendo efetivamente orientado
por um paradigma - quando há esta orientação, há
um acordo tácito sobre qual a pesquisa a realizar,
sobre o que é relevante fazer e como fazê-lo. Tais
perguntas, que poderiam levar a um questionamento
dos fundamentos da pesquisa a ser feita,
revelariam a ausência de diretrizes atuando de
modo eficaz no seu balisamento. Em sua eficácia,
tais diretrizes estabelecem o que deve ser
esperado, não tendo como meta a novidade
propriamente dita. O novo seria o anômalo, o
inesperado. E, embora só sabendo o que cabe
esperar possamos ter o pano-de-fundo para a
percepção de algo como uma anomalia, não é para a
descoberta desta que se dirigem os esforços da
ciência normal. Antes, visa à articulação do
paradigma. Mas, não esqueçamos, a proposta de Kuhn
é uma das análises contemporâneas da ciência,
ainda que das mais prestigiadas. A tua experiência
pode tanto ser elucidada por uma análise como
esta, quanto ser elucidativa para um exame dos
alcances e limites deste instrumento analítico. Um
ponto maior de interesse na análise proporcionada
por Kuhn refere-se às condições para a defesa e
aceitação de um novo paradigma, ou seja, no que
aqui nos ocupa, daquele conjunto de diretrizes
norteadoras da pesquisa a realizar. Kuhn ressalta
não haver um conjunto de critérios, valores,
cencepções básicas supraparadigmático que se
aplique equanimemente a todas as situações de
pesquisa, embora a comunidade envolvida seja
particularmente sensível ao caráter "promissor" ou
não de um paradigma, quando este mostra-se ou não
capaz de dar conta dos problemas que coloca e de
colocar problemas que sejam considerados
relevantes. Os tradicionais requisitos de
"objetividade" e "racionalidade", "testabilidade
empírica" são, por si só, pouco esclarecedores
para uma decisão entre paradigmas, ou melhor,
entre candidatos a paradigma. O fato de que toda a
pesquisa que se diga científica pretende ser
"objetiva", "racional" e passível de ser submetida
a "teste empírico" não determina que estas
exigências sejam, à luz de diferentes conjuntos de
diretrizes, entendidas e/ou aplicadas da mesma
maneira. Diferenças na sua significação e
aplicação tornam-se essenciais porque interferem
no modo como definem a prática em que efetiva a
pesquisa. O teu grupo, por exemplo, reconhece como
objetivos ou confiáveis resultados obtidos por
instrumentos e interpretações na sua leitura não
sancionados pelo conjunto de diretrizes que rege a
pesquisa do grupo? A questão da escolha e adesão a
um dado paradigma ou diretriz de pesquisa é
complexa, não podendo ser decidida apenas pelo
sucesso na testabilidade empírica de suas
hipóteses ou teorias centrais, através de suas
conseqüências ou aplicações particulares, nem pela
mera coerência interna dos enunciados a que dá
lugar - ambos critérios dependem de
desenvolvimento da pesquisa a ser norteada pelo
paradigma em questão. Todavia, são estes
apontados, em análise mais "tradicionais" da
natureza do conhecimento científico, como seus
fatores distintivos, sobretudo no que concerne à
testabilidade empírica, colocando esta
distintividade em algo como o método científico.
Em seu bojo ainda mais tradicional, encontram-se
as análises de cunho positivista que enfatizam
esta testabilidade em termos de verificabilidade
e, posteriormente, de confirmabilidade empírica
das hipóteses científicas. Estas análises têm no
chamado positivismo ou empirismo lógico uma das
mais influentes linhas de filosofia da ciência
comtemporânea². Numa perspectiva mais crítica,
colocando-se a análise de Karl Popper que vê, no
falseamento ou refutabilidade em princípio das
hipóteses por teste empírico, o critério basilar e
distintivo da ciência em seu método
característico. As análises popperianas podem ser
encontradas nas diversas e entre nós bem
difundidas obras de Popper, entre as quais estão A
Lógica da Pesquisa Científica (1975) e
Conhecimento Objetivo (1975). Popper chama a
atenção para a impossibilidade de verificação de
enunciados estritamente universais (enunciados que
dizem respeito, sem restrições espaciais ou
temporais, a "todos" os objetos de um dado
universo), valendo-se em boa parte de argumentos
já levantados por um filósofo inglês do século
XVIII, David Hume³ - além da restrição imposta
pelo "arrolamento imperfeito" de todos os casos
cobertos pelo enunciado, não temos razão para
alegar que o futuro seja igual ao passado, ou que
situações das quais não temos experiência. Desde
um ponto de vista lógico, se tomarmos cada caso
particular como conseqüência do enunciado
universal que o cobre, não estamos justificados a
passar da verdade do conseqüente (o enunciado
particular) à verdade do antecedente (o enunciado
universal), embora possamos, da falsidade do
conseqüente, falsear o antecedente. Popper
preserva, contudo, como decisivo, o critério da
estabilidade empírica, entendida esta em termos de
hipóteses passíveis de serem, em princípio,
refutadas pela experiência (bastaria um
"contra-exemplo" para refutar um enunciado
tipo-"todos"). Enriquece igualmente a idéia de
testabilidade empírica (e a do método distintivo
da ciência), requerendo sua aplicabilidade a
teorias concorrentes para a solução de um
problema, incluindo centralmente a idéia de testes
críticos ou experimentos cruciais a que tais
teorias seriam igualmente submetidas, tomando a
testabilidade empírica assim entendida como
critério para a nossa "preferência" por uma dada
teoria, como sendo a "melhor" num dado tempo.
Talvez tua experiência também te reporte a estas
últimas exigências como as que encerram o que deve
ser satisfeito pelo trabalho a desempenhares. Esta
ênfase, em boa parte, explica-se por condições da
pesquisa que não chegam a privilegiar um enfoque
analítico popperiano em detrimento de um kuhniano.
Usualmente, os projetos nos quais iniciantes se
engajam - mesmo nos da chamada "pesquisa de ponta"
e, talvez, sobretudo nestes - seguem, mal ou bem,
o curso de exigências da comunidade científica já
instalada, com diretrizes definidas e
inquestionadas (ou questionadas dentro de limites
que não abalam os fundamentos orientadores). Sem
estas condições, como se num período de ciência
normal, são, efetivamente, aqueles os critérios
para decisão (aceitabilidade/escolha) entre cursos
alternativos de ação/pesquisa permitidos pelo
paradigma ou por algo similar. Apenas quando esta
orientação básica é questionada, foge o consenso
quanto ao próprio significado, alcance e limites
do teste empírico. Além disto, engajado numa
atividade regida por algo como um paradigma, o
pesquisador não percebe a si e a seu grupo como
alguém que vê a realidade através dos óculos de um
paradigma. Antes, vê-se como alguém que está de
posse da trilha que leva à realidade (e, não, à
realidade segundo seu paradigma!). O teste
empírico, então, é "o" meio pelo qual "a"
explicação (e, não, a permitida pelo paradigma) é
científica, tendo assim medido o êxito de seu
acesso ao mundo. Ainda que não se adote uma
análise kuhniana, pode-se objetar, quanto à
testabilidade empírica e coerência interna como os
critérios determinantes para a escolha entre
diretrizes promissoras de pesquisa, que ambos são
fruto de um tempo de trabalho, de desenvolvimento
da pesquisa com a qual a comunidade científica se
ocupará e por cujas diretrizes já terá, então,
feito sua opção. Não se trataria, pois, de
determinar a escolha via teste empírico ou
irretocável coerência interna. Outros fatores
entrariam também em jogo no contexto de avaliação,
dentre os quais Kuhn incluiria a habilidade
persuasiva dos defensores de um candidato a
paradigma, e nós talvez devêssemos incluir algo
como obtenção de verbas, o que nos remeteria à
consideração de prioridades sociais ou interesses
das agências financiadoras. No caso de teu projeto
de pesquisa, que fatores têm determinado sua
orientação? Uma outra maneira de examinar a força
da testabilidade empírica na definição dos rumos
da pesquisa, bem como o papel do apego a uma dada
teoria orientadora e o das teorias concorrentes no
desenvolvimento da pesquisa, pode ser encontrada
na leitura de Paul Feyerabend, em Contra o Método
(1977), em Imre Lakatos, em O Falseamento e a
Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica
(I. Lakatos & A. Musgrave, 1979). Estes autores,
por razões que nem sempre são as mesmas, advertem
na prática normal da ciência tanto a tenacidade
ressaltada pela análise de Kuhn, de apego ao
paradigma, sem espaço para teorias paradigmáticas
concorrentes, como a proliferação de hipóteses,
mesmo conflitantes - ambos princípios, de
tenacidade e proliferação, igualmente necessários
e mutuamente remissivos no processo4. Feyerabend
ressalta que, para podermos explorar a evidência
empírica, precisamos de esquemas conceituais,
lingüísticos, metodológicos e mesmo perceptivos
alternativos, dado que toda a evidência empírica
é, segundo este autor, fisiológica e culturalmente
"contaminada" - não há como diz, "fatos nus",
fatos que não sejam vistos de uma determinada
maneira. Como é reconhecido por todas as análises
contemporaneamente feitas, a evidência fatual é
teoricamente determinada. Pensa um pouco sobre tua
vivência como pesquisador - já não tiveste que
refazer experimentos e conferir resultados na
suspeita de diferenças "metodológicas"? E não
encerram estas diferenças modos diferentes de
tratar a evidência? Podes interpretar os
resultados obtidos, dimensionar seu alcance e
limites, sem determinar a rede de significações em
que se apóia tua leitura, teu uso de termos, mesmo
dos "descritivos", daqueles que pretendem apenas
"descrever" o que está "dado"? Assim, no próprio
ensejo de que explorar a evidência empírica como
critério íntegro para confirmação ou refutação de
uma teoria com esquemas conceituais,
metodológicos, perceptivos únicos (romper com algo
como o método) e trabalhar com esquemas
alternativos - inclusive com hipóteses que
inicialmente conflitem com fatos e teorias bem
estabelecidas - para, via comparação e contraste,
trazer à luz aquela "contaminação" da evidência.
Não se trata de um mero elogio à "anarquia", mas
de uma estratégia de investigação a ser
trabalhada. Não se trata, como diz Feyerabend, de
recusar todo e qualquer método, mas sim, o
absolutismo de algo como o método e de defender o
pluralismo metodológico. Uma tal estratégia, para
sua própria fecundidade, não exime o pesquisador
de uma habilidade em mover-se com boa desenvoltura
por entre as diferentes exigências metodológias,
inclusive pelas apontadas naquelas análises mais
"tradicionais" do que seja a ciência. (De resto,
Feyerabend conheceu bem e, de certo modo, praticou
aqueles requisitos antes de criticá-los.)
Portanto, faz parte do próprio aprendizado crítico
lavar os vidrinhos, fazer as revisões
bibliográficas indicadas pelo orientador, repetir
e repetir experimentos, observar regras - então,
refletir sobre este trabalho (quem sabe, com
alguma leitura de Feyerabend no bolso) e, sabendo
por que "ousar", levar com paixão "novas"
propostas ao orientador, ao grupo. (Depois de um
certo tempo, já saberás até mesmo a que tipo de
argumentação teu orientador e/ou grupo é mais
sensível). Lakatos acentua outro aspecto
igualmente pertinente à questão do teste empírico:
sempre se pode, legitimamente, de um ponto de
vista lógico e/ou, "apelar" em caso de resultado
refutador - por exemplo, colocar em discussão o
pano-de-fundo, pressupostos implícitos de variada
gama, incluindo mesmo teorias acerca da percepção
dos fatos, definições, alegar que não podemos
excluir a possibilidade da presença de fatores
interferentes e desconhecidos, responsável pela
alteração dos resultados esperados, e assim por
diante. Esta alegação deixa sempre em aberto a
possibilidade de recuperação de um projeto
aparentemente falseado. Contra Popper, portanto,
embora diga-se estar na tradição popperiana,
Lakatos mostra que não há refutação conclusiva de
teorias. Aliás, Lakatos coloca como objeto da
análise do que seja ciência e pesquisa científica,
programas de pesquisa ou série de teorias, antes
que teorias isoladas. Destes programas é que cabe
julgar a cientificidade, comportando avaliações em
termos de programas progressivos, estacionários e
em degeneração. Segundo a análise de Lakatos, é,
de um lado, perfeitamente "racional", ou seja, "há
razões para", um cientista ou pesquisador
apegar-se a qualquer programa, mesmo a um em
degeneração. Este programa pode, em princípio,
pelas razões já aludidas, recuperar-se. De outro
lado, não será "racional" apegar-se a um programa
que, mesmo sendo-lhe dado tempo, não se recupera.
O problema, contudo, é que Lakatos não diz, como
bem observam Kuhn e Feyerabend, quais os critérios
para se considerar ter dado tempo suficiente para
a recuperação. Tais critérios, a existirem,
deveriam ser outros, além de razões lógicas e/ou
empíricas, únicas a que Lakatos pretende ater-se,
criticando a Kuhn e pondo-se ao lado Popper, num
repúdio ao que chama de sociologismo. Apesar de
tal repúdio e da reconhecida importância de razões
lógicas e empíricas, cabe perguntar, até como
conseqüência da leitura de Lakatos, pela
interferência de razões de outra ordem no curso da
pesquisa. Talvez esta pergunta nos leve a pensar
acerca do papel das prioridades na aplicação de
recursos, dependendo, pelo menos em boa parte, de
"disponibilidade de caixa", do tempo a ser
concedido para a recuperação de um programa, ou do
fôlego de seus orientadores para mantê-lo em pé.
Sem dúvida, ao se pensar em critérios como estes,
não se facilita a decisão - corre-se, por exemplo,
o risco de "podar" resultados a longo ou médio
prazo frutíferos e socialmente relevantes, em nome
de necessidades mais imediatas. De qualquer modo,
tais considerações nos mostram que fatores outros
, além de razões lógicas e empíricas,
"racionalmente" interferem nas diretrizes (e mesmo
na avaliação dos méritos) de uma pesquisa. A
propósito, como vai o teu programa? Que tipo de
dificuldade enfrenta? O que cabe fazer a respeito?
Talvez não possas (ainda) interferir no curso do
projeto em que trabalhas, detectar ou não
dificuldades. É parte do jogo que, antes de
poderes fazê-lo e de teres conquistado o direito a
"hipotetizar", sejas reconhecido como elemento
integrante e integrado ao grupo e, para tanto,
sejas iniciado no processo - e os "ritos de
iniciação", salvo raras exceções, começam com
tarefas mais modestas! Boa parte de teu
aprendizado - se não for toda - dá-se "fazendo".
Às vezes já tiveste aulas de metodologia, muitas
vezes de duvidosa serventia para tua presente e
efetiva ocupação com a pesquisa. Em qualquer caso,
não substituem aquele aprendizado que se dá por
internalização, via "inspeção direta", de regras
que são antes "pontos-de-vista" na resolução de
problemas como se fossem estes "quebra-cabeças",
"compartilhando problemas e soluções exemplares",
usando-se aqui expressões de análise kuhniana. Mas
também quero crer que, divergindo aqui talvez de
Kuhn, um certo distanciamento reflexivo eventual,
como este a que te estou convidando, também seja
útil a teu aprendizado. Despeço-me insistindo
neste ponto. Embora a pedagogia a que Kuhn se
reporta seja bastante eficaz (inevitável?) para o
aprendizado de certas práticas da ciência normal,
pode, e, que pesem seus méritos "produtivos",
tornar-se "bitolante". Em boa parte, seus efeitos,
bem como sua desejabilidade ou não, dependerão de
tuas pretensões - que tipo de pesquisador queres e
podes ser? Excelentes pesquisadores formam muitas
vezes o batalhão da limpeza e dos ajustes,
trabalho sempre necessário. Quais as
possibilidades, necessidades e anseios teus, do
teu grupo e da realidade social mais ampla que
"financia" a pesquisa? Se buscares alguma luz em
análises como a de Feyerabend ou a de Lakatos, que
enfatizam a tensão entre a tenacidade e a
proliferação, aquele aprendizado por "inspeção
direta" pode abrir-se a um trabalho que dá lugar
igualmente ao esforço criativo. Na visão de
Lakatos, por exemplo, um programa de pesquisa vai
desenvolvendo-se pela sucessiva construção e
modificação de modelos: imaginando, testando,
alterando, alterando antes de testar, alterando
ora as partes propriamente explicativas, ora as
descritivas, inclusive as que possam referir-se à
própria percepção dos fatos ou à construção do
experimento enquanto tal. A única coisa que
permanece protegida é o que Lakatos chama o núcleo
(metafísico) do programa, sua idéia-mestra, em
torno da qual, enquanto o programa perdurar,
constrói-se um cinto de proteção, dirigindo-se o
ataque às hipóteses que perfazem este cinto e
modelam aquela idéia. Neste processo, não há,
certamente, receitas prévias sobre como obter as
hipóteses relevantes, os modelos mais
interessantes, os núcleos mais férteis. Pode-se,
contudo, supor que, muitas vezes, a atenção
restrita a um único foco turve a visão e que seja
instrutivo, além de repousante e matéria de
agradável cidadania, percorrer esferas
interdisciplinares. Mas este ponto seria, por si
mesmo, motivo para toda uma outra conversa.
Procedimentos metodológicos estão comprometidos
com modos de ver a natureza das coisas, nosso
acesso a elas e os recursos que o viabilizam.
Certamente, existem manuais de metodologia, com
elencos de princípios e regras, e pode ser útil
lê-los, buscando-se seus comprometimentos com a
concepção e modo de analisar a ciência que estão
em suas raízes. Há, sem dúvida, regras - quais
sejam, porém, seu alcance e limites, depende de
uma experiência e reflexão que vai além dos
limites de "aplicação" das regras "lidas". E, se o
aprendizado de que nos fala Kuhn pode, numa
avaliação não-kuhniana, ser "bitolante", pode,
também, sob esta mesma avaliação, levar a um
criativo alargamento de horizontes. Pois a análise
de Kuhn, enquanto posta na perspectiva de elucidar
a natureza, sucesso e limites da atividade
científica vista em termos de processo de produção
da pesquisa científica, remete-nos, como este
autor bem coloca, a uma reflexão sobre sua
contextualidade e historicidade. Focalizada sob
esta perspectiva, a análise da atividade de
pesquisa científica permite abrir um debate com o
próprio enfoque kuhniano que ressaltou tal
perspectiva. Por este caminho, da atenção à
contextualidade e historicidade da ciência,
podemos muito aprender sobre o "obedecer" e o
"ousar" (como uma versão da tensão entre
tenacidade e proliferação) - ambos revelam-se
necessários em seu tempo e lugar. Quais sejam
estes, tua vivência como pesquisador vai te
mostrar. Parece que tanto a prudência como as
pressões institucionais recomendam começar pelo
primeiro, mas não pré-dizem quando passar ao
segundo. São desafios do processo e talvez seu
ponto mais excitante - uma certa juventude a ser
cultivada para que seu amadurecimento crítico o
revitalize, ao invés de envelhecê-lo. |