![]() |
|
|
Gilnei Magnus dos Santos E-mail: gilnei@contato.net Graduado em Letras, especialista em Metodologia de Ensino e Mestre em Educação, é servidor da EAFS há 13 anos e educador há 21 anos. Suas experiências pregressas apontam o cargo de Diretor de escola estadual, professor universitário, professor da rede estadual e atual Coordenador da CIEC. Veja Blog do Professor Gilnei |
|
Neste texto tentaremos explorar as novas dimensões do saber que vem se
delineando a partir do estágio atual em que se encontram as redes informáticas
de comunicação, bem como a partir de novos estudos da ciência contemporânea.
Para isso, utilizamos a categoria da complexidade, que tem evidenciado uma
transformação considerável da própria natureza do conhecimento científico e que
tem seus reflexos cada vez mais visíveis na composição da vida e da sociedade do
mundo atual. Por sua vez, este cenário em processo permanente de mudanças nos
desafia a lançar um novo olhar sobre o ato de aprender e suas novas
determinações. Neste trabalho que explora um território de contornos ainda um
tanto indefinido, mas não menos provocante, navegaremos mais pelos problemas que
se põem do que na busca ansiosa por soluções a esses novos desafios advindos da
necessidade de aprendência, entretanto não perdendo de vista uma aproximação
dessa nova dimensão do saber/aprender com a realidade escolar. Tomemos como
ponto de referência e que vem sendo presenciados pela sociedade atual: o
desenvolvimento de pesquisas avançadas a respeito da complexidade do cérebro
humano que vem sendo estudado pelas neurociências, o surgimento de novos padrões
de consumo, com produtos cada vez mais sofisticados, automatização constante,
invenção e desenvolvimento de tecnologias de comunicação e informação cada vez
mais potentes e abrangentes... E eis que de repente nos vimos em meio a um
mundo circundado por informações das mais variadas naturezas. A cada instante
vão surgindo novos modelos de soluções aos problemas e necessidades em todos os
ramos da atividade humana. A era digital traz consigo uma explosão de novas
informações, e, consequentemente, de um novo conhecimento. O mundo que sempre
esteve num processo de transformação, agora muda de forma acelerada. As
tecnologias de comunicação atuais vem se constituindo como um vasto campo de
possibilidades de realização ao unir espaços antes separados, espaços e tempos
compactados, ou, ao contrário, desterritorializa atividades antes localizadas,
permitindo miríades de novas conexões entre os homens e milhares de formas de
interação com o meio ambiente. Podemos considerar a idéia de que somos produto
de um conjunto de circuitos e canais propiciados por tais tecnologias. Isso faz
mais sentido à medida que admitimos que as tecnologias intelectuais que circulam
num novo espaço de relações - o ciberespaço - vêm alterando e ampliando muitas
de nossas funções cognitivas: nossa memória ganha um poder maior de expansão via
banco de dados e hipertexto; nossa percepção via realidades virtuais, sensores
digitais e telepresença; nossa imaginação pode ser otimizada via simulações;
nosso raciocínio via inteligência artificial (Lévy, 1999, p.157). Assim a
humanidade dá uma nova virada histórica na relação com o saber. Outras viradas
aconteceram, ocasionando mudanças profundas na vida cotidiana e nas
subjetividades. A passagem da oralidade à escrita, por exemplo, possibilitou uma
maior difusão do conhecimento, principalmente a partir da impressão, onde o
conhecimento deixou de circular somente na esfera dos intelectuais produtores de
um determinado saber, podendo ser a partir de então descontextualizado de quem o
produzia e possibilitando agora ser lido e interpretado por um maior número de
pessoas, saindo dos domínios restritos de seu autor (Lévy, 1993). Porém, talvez
seja pela primeira vez na história que se tenha uma apropriação coletiva do
fenômeno técnico, uma vez que as tecnologias intelectuais que habitam o
ciberespaço potencializam uma maior democratização do conhecimento. A rede
mundial de computadores - Internet - encarna o poder desterritorializado, onde
não reinam hierarquias, mas sim cada indivíduo representando um nó em uma
complexa rede hipertextual. Temos a partir de então uma miríade (como diria Lévy)
de autores/leitores conectados em rede, uma relação em que emissores e
receptores se confundem, onde cada um contribui com seus campos semânticos, sem
a pretensão de totalidade, ou seja, sem pretenderem o fechamento semântico ou
uma redução do denominador comum(Lévy,1999, p.117). No contexto da comunidade
virtual podemos constatar um ambiente em que circulam uma vasta gama de
informações - um verdadeiro caldeirão efervescente de informações que
transbordam por todos os lados! A rede além de funcionar como mediadora da
comunicação vai propiciar que um novo processo de cognição se estabeleça. O
pensar, o sentir e o perceber dos humanos vão sendo alterados dentro dessa nova
ordem. Estamos vivendo uma verdadeira mutação antropológica, onde a constituição
do humano ganha uma nova abordagem. A ciência chega a novas considerações,
mudando algumas posições em relação à racionalidade e à verdade científica. A
racionalidade na ciência ocidental fundou-se no princípio de que o real é
universal e objetivamente válido, desta forma, a realidade poderia ser
compreendida através de argumentos racionais objetivos. Longe da visão
determinista em que se pregava que "se conhecermos o estado de um sistema num
estado inicial, poderemos determinar seus estados em qualquer instante
ulterior", Ilya Prigogine, físico-químico, Prêmio Nobel por suas teorias sobre
estruturas dissipativas e auto-organização, contrapõe essa visão da física
clássica newtoniana, enfatizando não ser mais possível determinar ou prever um
futuro, pois os comportamentos de um organismo vivo pode apresentar ações e
comportamentos imprevisíveis e por demais complexos. Assim, Prigogine (1996) ao
considerar esses comportamentos aleatórios considera que um sistema aberto onde
a perturbação ocorre, tende a exportar entropia e mover-se na direção de uma
complexidade maior. Temos assim a teoria do Caos, com estatuto de uma ciência
que se diferencia da ciência clássica. O Caos é uma ciência de processo.
Prigogine (1996) defende a idéia de que o nascimento das moléculas e de sua
complexibilidade emergem do Caos. Assim, o Caos seria a ordem dentro de um
princípio não linear e não determinado de ordenação da natureza. Os estudos de
Prigogine com respeito a teoria de processo dos sistemas abertos podem
contribuir numa compreensão de desenvolvimento do homem e da própria natureza
como entes por demais complexos e em constantes transformações. Indo nessa
direção, Assmann nos leva ao entendimento do conceito de complexidade,
advertindo para que ultrapassemos as idéias de senso comum que vinculam a
complexidade como "uma espécie de curinga verbal para aludir a coisas
complicadas. Como ruptura epistemológica em relação à razão calculante do
cientificismo moderno, a teoria da complexidade se refere sobretudo àquela
característica básica de muitas situações, acontecimentos e processos que faz
com que não possam ser analisados pela somatória de todas as análises parceladas
de todos os seus componentes ou ingredientes. O que equivale a dizer que, por
mais modelos mecanicistas que se invoquem para complementar-se entre si, nunca
se chega a capturar, por essa via, as interações que existam no bojo dos
sistemas complexos."(Assmann, 1998,p. 148). Meireu também nos oferece uma visão
da complexidade bastante distinta da idéia de complicação que poderia advir de
tal termo, intrigado com as confusões que isto pode suscitar, vai chegar a uma
análise bastante otimista sobre o assunto em questão. Em seus termos: "A
complexidade preocupa. Na verdade, é quase sempre confundida com a complicação.
Ora, se a segunda é efetivamente o fruto de uma intervenção que vem 'embaralhar
as cartas', a primeira é, por outro lado, a expressão da solidariedade que liga
todas as outras coisas entre si e rege sua interação. Enquanto que a segunda nos
priva do poder, a primeira nos o traz: um sistema complexo não é um sistema que
foge a nossa compreensão, é um sistema que se oferece a nossa ação, um conjunto
de elementos que estão ligados de tal forma que a transformação de um
determinará a modificação dos outros e, consequentemente, terá efeitos sobre
todo o sistema". (Meireu, 1998, p.155) Temos, assim, um princípio que requer a
necessidade de solidariedades, onde o respeito às singularidades deve
constituir-se peça chave nas interações, levando-se em consideração fatores tais
como surpresa e imprevisibilidade na natureza desses contatos. |
|
| Referências
Bibliográficas ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petrópolis, Vozes, 1998. BUENO, Francisco da Silva. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, MEC/FENAME, 1976. DE LÁZARI, Joana S. Aprender é preciso navegar também. Seminários em Revista FURB, ano 1, n. 2, 1998. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1993. ___________. Cibercultura. São Paulo, Ed. 34, 1999. MEIREU, Philippe. Aprender...sim, mas como? Porto Alegre, Artes Médicas, 1998.. PRIGOGINE, Ilya. O Fim das Certezas. São Paulo, UNESP, 1996. Sombrio, outono de 1999 |
|