|
O bom leitor (Daniel Piza)
Costumamos discutir o que é um bom
livro e um bom escritor, mas esquecemos de tentar responder o que é um bom
leitor. O princípio é: quanto mais livros a pessoa ler, melhor. E esse princípio
é equivocado.
É preciso ter o hábito prazeroso de ler muitos livros, mas bons livros; e os
bons livros são, como tantas coisas boas nesta vida, minoria. Além disso, há
muita gente que lê muito, mas lê mal; não faltam intelectuais para servir de
exemplo. Num país onde a arrogância dos ignorantes se alastra por todas as
classes sociais, estimular a boa leitura deveria ser fundamental. Mas as escolas
em geral, quando tentam estimular a leitura, terminam estimulando a má leitura.
Clássicos, por exemplo, são passados como coisas chatas. Na verdade, muitos são
realmente chatos e outros tantos só podem ser lidos depois de certa maturidade e
leitura; mas alguns podem provocar curto-circuito mental, libertar o senso
crítico e criativo, expandir os horizontes existenciais do iniciante. Obrigar um
adolescente a ler Senhora, de José de Alencar, pode condenar um futuro leitor.
O romance não é só chato por ser obrigatório, mas também porque nem deveria ser
chamado de clássico. Clássico não é o mesmo que antigo: é o livro que novidades
não esgotam. O gosto pela leitura tem de ser transmitido como uma forma de
entender a própria vida. Qualquer livro deslocado de seu poder de perturbar não
passa de arquivo. E não são apenas os clássicos que podem perturbar, embora
mereçam sempre o crédito de que já perturbaram muitas gerações. O bom leitor,
então, não lê para concordar totalmente, ainda que possa vir a concordar com o
cerne do que lê. É o que lê para poder refletir sobre o que ainda não
conseguiu refletir, sendo capaz de admirar mesmo quando discorda. Não lhe basta
o "Puxa, sempre quis dizer isso e não sabia como". É preciso também o "Eu não
havia pensado nisso" - que as frases fiquem zumbindo em sua cabeça depois. Maus
leitores também supõem que livro bom é livro grande. Graciliano Ramos
disse que a maioria dos livros poderia ser muito menor. O mesmo poderia ter sido
dito em muito menos páginas. E isso, para mim, começa especialmente pelos
romances. A noção de que os romanções sejam o pilar central da leitura, da
cultura, é tola. Poucos escritores podem fazer um romance de mais de 300 páginas
que valha a pena. E mesmo muitos livros desses autores - de Cervantes a Joyce,
passando por Stendhal, Tolstoi, Mann ou Euclides da Cunha - talvez fossem
melhores se sofressem alguns cortes. Há muitos grandes livros, muitos clássicos
da humanidade, que são livros ou textos pequenos - de Ésquilo a Kafka, passando
por Shakespeare, Montaigne, Nietzsche ou Graciliano. O bom leitor não dá
preferência a um gênero. Ficção é importante e inclui contos, poemas, peças.
Mas, sobretudo num mundo tão inundado de ficção em todas as suas formas
(incluindo filmes publicitários), não convém ler muita ficção. Ensaios sobre os
mais diversos assuntos, como arte e ciência, e livros de história e
pensamento, indo de artigos a biografias, podem ser decisivos. O bom leitor
gosta também de cartas, diários, aforismos, memórias - ciente de que boas idéias
podem aparecer em qualquer formato e algumas linhas. Já o interesse por diversos
assuntos não o impede de se deixar levar por uma fase em que lê "tudo" de um
autor ou tema. |
|
E ele vê na crítica, na amizade
impessoal com alguns críticos culturais, uma forma de aguçar suas escolhas, de
enriquecer sua percepção, tal como nos bons livros. Na próxima semana, em São
Paulo, começa mais uma Bienal do Livro. O público lota. Mas eu estava lendo
Livros Demais!, de Gabriel Zaid, e O Brasil Pode Ser um País de Leitores?, de
Felipe Lindoso (ambos da Summus Editorial), e pensando justamente nos problemas
do leitor que vai a uma Bienal, vê aquela multidão de livros na maioria caros
para ele, não tem orientação nenhuma a não ser suas inclinações pessoais por
algum gênero ("Ah, eu adoro romance policial") ou tema (em geral do momento,
como educação paterna, historinha da cidade, etc.) e sai de lá sem a
oportunidade de se tornar um leitor melhor. O Brasil não chega a ter mil
livrarias de verdade, embora tenha a metade desse número de editoras. Afora a
carência de dinheiro, política e orientação, há todo o clima cultural que diz
que ler é perder tempo, de nada adianta, não serve para ganhar o pão ou governar
um país. Do outro lado, que muitas vezes termina sendo o mesmo lado, há a
propaganda de que ler dá status, é "im-por-tan-te" ou traz a felicidade dos
comerciais de refrigerante. O bom leitor não cai nessa. Sabe que a leitura não
se mede por vantagens práticas imediatas ou por quesitos falsamente objetivos,
como os que andam sendo utilizados nos júris de alguns prêmios literários
nacionais. Sabe que a leitura pode adensar sua inteligência e o ajudar a
enxergar para além das polarizações sentimentais que marcam tanto o debate
subdesenvolvido. E que isso, acima de todas as coisas, lhe dá instrumentos para
ao menos resistir à palermização vigente.
Fonte: O Estado de São Paulo - 11 de abril de 2004
O mundo passa por transformações cada vez mais profundas.
A leitura é uma janela para o mundo.(M. R.)
|