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A conta e a corrente
por Ricardo Prado, redator-chefe de Carta
na Escola
Os números nos cercam desde o nascimento. Ganhamos de imediato uma data de
aniversário, um número de registro na maternidade, registros de peso e altura e
até uma nota dada a partir das habilidades motoras demonstradas nos nossos
primeiros minutos de vida. Será a primeira de muitas avaliações, todas expressas
em números. Depois surgirão outros, aos montes, principalmente ao entrarmos no
lugar onde moram os números, as aulas de Matemática. Ali as aptidões inatas logo
se revelarão. Há os que nasceram para fazer contas e aqueles que vêem nelas
enigmas quase indecifráveis. Deste grupo, muitos percebem nos números mistérios
ocultos que poderão ser revelados à custa de muito esforço. Ao longo de anos de
exposição aos saberes da Matemática, conseguirão fazer suas contas, perceberão
ordens de grandeza, saberão estimar distâncias, avaliar gráficos e tabelas.
Tornar-se-ão funcionalmente alfabetizados em números.
Mas haverá, também, o grupo dos resistentes. Eles baterão cabeça com os números,
brigando contra eles e contra notas baixas ao longo de suas trajetórias
escolares. Por fim, concluirão: “Eu odeio Matemática!” Por alguns anos esses
alunos alimentarão a ilusão de que podem viver sem ela, bastando escolher
profissões que passem ao largo das principais habilidades numéricas. Mas essa
conta não vai fechar, principalmente quando alguém do grupo dos “resistentes”
receber seu primeiro salário. É aqui que entra a tão necessária Educação
Financeira, tema de capa desta edição de Carta na Escola.
Como calcular os juros embutidos em um par de tênis? É melhor quitar uma dívida
à vista? Em que condições? Ou, antes disso, será que a relação custo-benefício
do produto compensa? Eu preciso mesmo desse produto ou quero comprá-lo mais pelo
que ele representa de status, de prestígio social entre os meus?
Mesmo que não olhemos para os números, eles apresentarão sua lógica implacável.
E poderão, rapidamente, transformar um sonho parcelado a perder de vista em um
pesadelo a sangrar, mensalmente, o valioso dinheiro recebido em troca de algum
trabalho. É essencial que a escola assuma sua parte nisso, discutindo consumo,
em seus aspectos mais amplos, e educação financeira, esta ancorada em dados da
realidade de cada aluno. A leitura da reportagem “A armadilha do crédito”,
publicada em CartaCapital e republicada nesta edição, e as reflexões feitas, a
partir dela, por dois colaboradores regulares de nossa revista, Roberto Perides
Moisés, professor de Matemática, e Flávia Schilling, da Faculdade de Educação da
USP, podem ser muito úteis para não transformar jovens trabalhadores em
endividados precocemente acorrentados a um gesto impulsivo.
FONTE: CARTA NA ESCOLA:
http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/2007/16/a-conta-e-a-corrente/
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