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Por
Simon
Schwartzman
Publicado em Ciência Hoje (Rio de Janeiro, SBPC),
vol 2, 11, Março-Abril, 1984, 54-59.
O que é "ciência"? Conhecimento verdadeiro por
oposição ao conhecimento errado ou duvidoso? O
resultado de experiências. em contraste com o que
sabemos pelo senso comum? Conhecimento medido,
quantificado, e não aquele que adquirimos
intuitivamente? A Verdade, com V maiúsculo. em
contraste com as verdades menores? Um privilégio
dos sábios e iniciados, nunca acessível às massas?
Um fator da produção, como o capital, o trabalho e
a tecnologia? Aquilo que fazem os cientistas?
Nenhuma dessas respostas é satisfatória, e no
entanto cada uma delas corresponde a noções que
muitas vezes encontramos entre cientistas,
educadores. filósofos e estudiosos dos fenômenos
científicos. Não existe um conceito único e
consensual sobre o que seja "ciência", mas noções
que variam ao longo do tempo e do espaço. Além
disso, existem sociedades e períodos históricos
que produzem mais e melhor "ciência" do que
outros, ou ciência de um ou outro tipo. Como
explicar essas variações? De que elas dependem?
Que influência tem a ciência no desenvolvimento ou
na mudança das sociedades? Será ela um simples
subproduto de condições econômicas e sociais mais
gerais, ou terá um efeito específico e próprio?
Finalmente, como fazer se queremos ter mais
ciência, de melhor qualidade e com um impacto
social mais significativo? Como desenvolver uma
política científica adequada?
Estas perguntas mostram que "ciência" não é uma
coisa simples, que se possa definir com facilidade
recorrendo a uma boa enciclopédia. Trata-se de um
fenômeno social e humano bastante complexo e
variado, suficientemente importante para gerar
todo um esforço para compreendê-lo e poder em
seguida agir sobre ele. Esta é a origem da
"ciência da ciência", e mais especificamente da
sociologia da ciência, que trata de examinar o
fenômeno cientifico como um fato social.
A mais antiga das ciências da ciência é a
filosofia. Os filósofos de todos os tempos
observam que os homens conhecem a natureza, mas o
fazem de maneira imperfeita e variável. Como é
possível, perguntam-se, chegar a conhecimentos
verdadeiros e indiscutíveis? A tarefa da filosofia
consistiu. durante séculos. em estabelecer o
melhor método do conhecimento verdadeiro, e depois
aplicá-lo para o entendimento do mundo, da
religião e da moral. Nesta tradição, o Verdadeiro,
o Bom e o Bem eram quase sempre considerados
inseparáveis. Quando Descartes propôs o método da
enumeração das "idéias claras e distintas", passou
pela prova da existência de Deus para chegar ao
mundo empírico. Toda a discussão clássica sobre a
estrutura e as origens do sistema solar
representou, ao mesmo tempo. um desenvolvimento de
novas técnicas de observação e análise dos
fenômenos e uma grande especulação de tipo
filosófico e religioso. A obra clássica de Newton
sobre mecânica celeste se chamava, em latim,
Princípios matemáticos da filosofia natural, e
pretendia inaugurar tanto uma nova maneira de
conhecer a natureza quanto demonstrar a harmonia
divina do Universo. Os enciclopedistas e
positivistas franceses pretendiam chegar, pela
ciência, a uma nova ética e a uma nova religião
que substituíssem as antigas, contaminadas -
segundo acreditavam - pela superstição e pela
metafísica.
A revolução mais importante dos últimos séculos no
campo da filosofia da ciência talvez tenha sido a
obra de Emmanuel Kant, que propunha uma separação
profunda e insuperável entre o conhecimento
empírico e o conhecimento filosófico, tratando de
estabelecer as condições de possibilidade de cada
um deles. Para Kant, a observação empírica, a
utilização da lógica matemática e da razão
obedeciam a uma estrutura geral de relacionamento
entre a percepção e a observação (ou
"sensibilidade") que poderia ser estabelecida e
servir de base para todo o conhecimento científico
futuro. Era, no entanto, um conhecimento das
aparências dos fenômenos. As verdades morais e
religiosas só poderiam ser obtidas por outra via,
a da razão prática, que teria como ponto de
partida uma atitude ética do homem em relação a si
próprio e a seus semelhantes. Uma das
conseqüências importantes das idéias de Kant foi,
assim, separar o estudo das condições do
conhecimento científico (a lógica, a
epistemologia, a filosofia crítica) da discussão
das questões éticas, religiosas e cosmológicas que
também preocupavam os filósofos.
A idéia kantiana de que seria possível
estabelecer, no plano lógico, as condições mais
gerais para o conhecimento científico, geraria uma
literatura cada vez mais vasta e especializada,
grande parte da qual englobada. neste século,
pelos termos "neopositivismo" ou "positivismo
lógico". Nesta corrente, despontam nomes como
Carnap, Wittgenstein, Popper e Russell. Hegel, um
discípulo de Kant, tratou de voltar atrás na
distinção entre os dois tipos de conhecimento.
dando origem a pelo menos duas linhas de
especulação filosófica, a da busca de uma nova
lógica, a dialética. e a da busca de novos
fundamentos para o conhecimento das essências, a
fenomenologia, da qual surge, entre outras
correntes, o existencialismo.
Entretanto, enquanto os filósofos especulavam
sobre as possibilidades da ciência. os cientistas
continuavam seu trabalho, indiferentes na maior
parte dos casos. ao que os filósofos pensavam ou
diziam. Que fazem, na verdade, os cientistas? De
onde tiram suas idéias, seus métodos, suas
conclusões? Como conseguem convencer os outros de
suas verdades? Para muitos, foi ficando claro que
a ciência só poderia sei realmente entendida se a
ela fossem aplicados os mesmos métodos de
observação e inferência que a ciência emprega para
o conhecimento de fenômenos naturais e sociais. Em
outros termos, se fosse constituída uma ciência
empírica da ciência.
A sociologia do conhecimento, quase toda ela
desenvolvida a partir do marxismo, foi uma das
grandes tentativas de estabelecer uma ciência da
ciência. Para Marx. a vida social se organizaria a
partir do trabalho e da apropriação social de seu
produto, feita. freqüentemente de forma conflitiva
e alienante. Esta seria a infra-estrutura sobre a
qual as outras criações humanas - a religião, a
arte, a moral, o direito, o conhecimento - se
apoiariam. Para entender o judaísmo, dizia Marx.
não interessa o que o judeu faz nos sábados, e sim
o que faz nos dias de semana. Para entender uma
lei, há que ver a quais interesses ela serve. Para
entender a ciência moderna é necessário ver que
ela faz parte do capitalismo, e tem por objetivo
garantir seu crescimento e sua continuidade.
Era uma maneira totalmente revolucionária de ver
as coisas. De fato, é impossível negar, em termos
amplos, que a ciência moderna e o capitalismo
cresceram juntos. Agora, seria possível olhar para
trás e ver a oposição entre a Igreja Católica e
Galileu como uma manifestação do conflito entre o
feudalismo medieval e o capitalismo nascente;
atribuir ao sistema de Newton a função de
justificar a nova ordem burguesa; tratar de
explicar o crescimento da ciência e da técnica na
Alemanha, na Inglaterra e na França do século XIX
pela força do capitalismo nesses países; e até
mesmo sugerir que as noções de relatividade e
indeterminismo, introduzidas na física do século
XX, têm a ver com a decadência do capitalismo e
com o surgimento de uma nova ordem socialista, que
traria consigo, presumivelmente, uma ciência mais
profundamente verdadeira.
Não faltou quem propusesse estas e muitas outras
teses semelhantes. Um dos grandes problemas da
sociologia do conhecimento foi ter ido muito além
do estudo e da observação dos fatores sociais que
condicionam a atividade científica e outras formas
de conhecimento humano, e ter tentado, como uma
nova filosofia, estabelecer aprioristicamente as
condições, os limites e a própria validade ética e
científica deste conhecimento. Engels, o amigo e
protetor de Marx, escreveu uma Dialética da
Natureza, com a qual pretendia fundar uma nova
ciência natural que, liberta da lógica formal
burguesa, séria própria do mundo socialista a ser
implantado . Décadas depois foi a vez de Lênin-
com seu Materialismo e Empiro-criticismo, onde
denunciava os desvios ideológicos da ciência
"agnóstica" do capitalismo.
Se nas ciências naturais a tentativa de distinguir
um conhecimento "socialista" de um conhecimento
"burguês" não avançou, nas ciências sociais ela
foi muito mais longe, e ainda hoje tem seus
defensores. Para o filósofo húngaro Georg Lukács,
por exemplo, haveria um limite do que a ciência
social burguesa pudesse conhecer, dado pelos
interesses dessa classe: só uma ciência proletária
poderia realmente entender as contradições do
capitalismo e prever sua transformação e queda.
Difundidas na França na década de 50 por Lucien
Goldmann, essas idéias levaram a considerar todas
as diferenças de opinião ou de metodologia na
análise do os fatos sociais como formas
disfarçadas de luta de classes - de um lado os
empiristas, funcionalistas, defensores dos
conhecimentos limitados e da ordem social, e do
outro os dialéticos, holistas, preocupados com a
totalidade, a mudança social e o futuro.
Em geral, os cientistas dedicaram à sociologia do
conhecimento a mesma indiferença que haviam
dedicado aos epistemólogos, criando novos métodos,
ultrapassando os limites e as camisas-de-força que
os filósofos e sociólogos do conhecimento tratavam
de lhes imputar. Mais sério que os eventuais
equívocos provocados por extrapolações extremas da
intuição original marxista, entretanto, foram os
efeitos da politização introduzida na área
científica pela tradução automática de diferenças
de teoria. percepção e opinião em conflitos
ideológicos partidários ou classistas. Ficou
célebre o triste destino da pesquisa genética na
URSS, quando a questão da transmissão dos
caracteres adquiridos se transformou em dogma
político-partidário, levando seus propositores a
serem tratados como inimigos do socialismo e
vitimados pelo ostracismo ou pelo exílio. As
ciências sociais também fenecem quando
demasiadamente próximas de partidos ou regimes
políticos preocupados em utilizá-las para seus
fins imediatos. O próprio marxismo tem hoje seus
grandes centros nas universidades da Europa
Ocidental, e não, como pensariam Lukács e seus
seguidores, junto aos grandes partidos comunistas
ou nos países do bloco socialista. Da mesma forma,
falhou nos EUA a tentativa de criar, às custas de
fortes subvenções, uma nova teoria do
desenvolvimento e da modernização social que
tivesse como ponto culminante a
internacionalização do American way of life.
A sociologia da ciência de nossos dias não
abandonou a idéia de que a atividade científica,
como qualquer atividade humana depende de
condicionantes sociais Mas isto agora é feito com
muito mais cuidado, com uma compreensão bem mais
aguda das características mais próprias do
trabalho científico, e com utilização intensa da
observação empírica, seja de tipo histórico, seja
de tipo quantitativo e sistemático. Qualquer
tentativa de resumir as principais conclusões da
sociologia da ciência hoje deveria incluir pelo
menos os seguintes itens.
Primeiro, a atividade científica não é uma simples
decorrência de características muito gerais do
sistema econômico e social, mas depende de
estruturas e sistemas sociais muito mais delicados
e específicos. O trabalho científico exige grupos
de pessoas dedicadas profissionalmente a ele; uma
ética que valorize o conhecimento e prestigie
aqueles que o busquem; um sistema de incentivos
para o trabalho científico que lhe permita atrair
os melhores talentos, e uma cultura que dê lugar
ao surgimento de novos conhecimentos pela
observação e a análise racional. em contraste com
aquelas onde predominam os conhecimentos
ritualizados e carregados de afetividade. O
trabalho científico necessita, ainda, que os
cientistas sejam os principais avaliadores e
juízes de seu trabalho, e que não tenham que
submeter suas conclusões à aprovação de outras
instâncias, religiosas, políticas ou
institucionais.
Uma segunda constatação é a de que não tem sentido
falar, a não ser em termos muito gerais, de
"ciência", e muito menos de "ciência e
tecnologia", como de uma coisa única. É muito
distinto, por exemplo, o trabalho científico em
física teórica, parasitologia, química analítica
ou teoria econômica. Além das óbvias diferenças de
conteúdo, existem verdadeiras "sub-culturas"
científicas, cada qual com seus procedimentos de
verificação e demonstração, seus padrões dê
trabalho, suas formas de comunicação, e a maneira
de se relacionarem com outras disciplinas e
instituições de trabalho científico. A pesquisa
tecnológica, por sua vez, obedece freqüentemente a
uma lógica e a condicionamentos totalmente
diferentes dos da pesquisa científica. Ela tende a
responder de maneira muito mais imediata a
incentivos econômicos e militares, é mais
suscetível a sistemas de planejamento e a
controles externos, e tende a ter custos muito
mais altos.
Terceiro, as ligações entre pesquisa científica,
pesquisa tecnológica, industrialização, educação
superior, etc. são muito mais complexas e
imprevisíveis do que muitas vezes se supõe. De
maneira geral, um bom desenvolvimento científico e
tecnológico necessita de todas essas coisas ao
mesmo tempo - uma indústria desenvolvida, um bom
sistema universitário, instituições de pesquisa
bem constituídas etc, No entanto, existem
variações importantes e espaços para inovação e
mudança. Não parece haver dúvidas, por exemplo, de
que a Inglaterra, a Alemanha e o Japão
desenvolveram seus sistemas educacionais muito
antes de suas indústrias; existem países, como a
Índia, que desenvolveram sua ciência sem maior
impacto em sua industrialização, e outros, como a
Bélgica, que se modernizaram e industrializaram
com sistemas científicos e tecnológicos bastante
modestos. Nos últimos anos, os EUA vêm reduzindo
sua liderança absoluta na pesquisa científica
internacional, sem que isso esteja relacionado com
uma redução efetiva de seu potencial econômico.
Finalmente, a atividade científica e tecnológica
não responde muito bem a tentativas de planejá-la
e orientá-la para objetivos politicamente
definidos. A partir da Segunda Guerra Mundial,
principalmente, desenvolveu-se em todo mundo a
idéia de que a pesquisa científica precisava ser
incentivada, planejada e utilizada como fator de
desenvolvimento econômico e social. Em muitos
países, foram criados ministérios, conselhos e
centros nacionais de ciência e tecnologia. Era um
objetivo que já vinha sendo buscado pela União
Soviética desde os anos 20 e que ganhou grande
aceitação no Ocidente graças, pelo menos em parte,
ao trabalho incansável de J. D. Bernal, cientista
inglês que foi autor de texto famoso, A função
social da ciência, publicado nos anos 30, e
liderou o envolvimento dos cientistas ingleses no
esforço de guerra de seu país.
No entanto, parece haver uma certa correlação
inversa entre o poder dessas instituições de
política científica e a qualidade e relevância dos
trabalhos científicos produzidos nos diversos
países. Uma razão óbvia para isto é que, quando
existe forte demanda econômica para a pesquisa
tecnológica, quando o sistema educacional é de boa
qualidade e as instituições científicas são
prestigiadas e bem constituídas, o planejamento da
ciência e da tecnologia torna-se na realidade
pouco necessário - e vice-versa. Menos
trivialmente, as tentativas de submeter a pesquisa
científica a mecanismos de planejamento podem
muitas vezes violar duas das condições essenciais
para o trabalho científico bem-sucedido, que são a
sua autonomia e sua auto-regulação. Por outra
parte, não há dúvida de que certos objetivos
tecnológicos de grande porte, da viagem à Lua à
implantação de uma indústria de computadores, só
podem ser atingidos se buscados por meio de um
planejamento cuidadoso e detalhado.
Além de generalizações como as feitas acima. a
moderna sociologia da ciência tem podido
desenvolver conhecimentos bastante específicos
sobre diferentes países, áreas de conhecimento,
tipos de instituição e períodos históricos. Isto
tem sido possível. em grande parte graças à
utilização intensa dos mais diferentes métodos de
observação e analise, da história à observação de
tipo antropológico, chegando à utilização cada vez
mais complexa de métodos estatísticos por
computador. A história da ciência é hoje um campo
de pesquisa bem estabelecido, que tem como
objetivo conhecer em profundidade as diversas
formas e os diversos contextos em que a atividade
dita "científica" se desenvolveu em diferentes
tempos e países. É através da história da ciência
que é possível observar, em detalhe, o
relacionamento entre o conhecimento científico, a
filosofia, o desenvolvimento da educação e as
transformações econômicas e sociais. É ela que
mostra a complexidade do surgimento de novas
idéias e teorias, que são sempre uma combinação,
geralmente difícil de antever, entre a necessidade
intelectual dê compatibilizar informações
aparentemente díspares com motivações.
preocupações e visões de mundo de determinada
época ou de determinado setor da sociedade. Seus
temas vão desde as questões mais "internas" à
atividade científica - o surgimento da física
newtoniana, o evolucionismo e sua implantação, o
surgimento da psicologia experimental, a história
da química - até as mais "externas" - a formação
das sociedades e academias científicas, as
transformações das universidades, as condições de
surgimento e crescimento das comunidades
científicas, etc.
No outro extremo, a atividade científica é
traduzida em números, que depois são examinados em
suas tendências mais globais: quantidade de
artigos publicados, doutores formados, patentes,
citações. recursos investidos. Derek de Solla
Price, um pioneiro nesses estudos, foi capaz de
mostrar quê a ciência tem uma tendência histórica
ao crescimento exponencial, duplicando suas
dimensões a cada dez ou vinte anos, o que leva a
inferências significativas tanto sobre a natureza
necessariamente aberta da pesquisa científica
quanto sobre os possíveis efeitos da estagnação ou
da redução de seu crescimento. A análise das redes
de citações nos artigos científicos, possível
graças aos grandes bancos de dados bibliográficos
que estão sendo formados em todo o mundo, permite
determinar as "comunidades invisíveis" formadas
pelos cientistas, a estruturação de novas áreas
interdisciplinares de pesquisa, e desenvolver
indicadores da atualização, provincianismo,
hegemonia ou endogenia dos diversos centros ou
núcleos de trabalho científico. A publicação, em
1979, do livro Vida de laboratório -a construção
social dos fatos científicos, de Bruno Latour e
Steve Woolgar, provocou uma pequena revolução na
sociologia da ciência. ao buscar reconstruir, pela
observação quotidiana do trabalho dos cientistas,
as formas pelas quais o conhecimento científico é
de fato pesquisado e constituído.
A ciência da ciência é hoje uma atividade
multi-disciplinar, com muitas abordagens distintas
das que apresentamos aqui. Existe todo um campo
para os estudos econômicos da ciência e da
tecnologia, que engloba desde a análise dos
mecanismos de financiamento da pesquisa até o
processo de difusão de novas tecnologias na
indústria e seu impacto na atividade econômica.
Psicólogos e educadores se dedicam à compreensão
dos processos mais individuais de desenvolvimento
da capacidade criativa e seus condicionantes
sociais, culturais e institucionais. Cientistas
políticos se debruçam sobre as instituições
governamentais voltadas para o financiamento e
eventual controle da atividade científica, suas
características, seu poder efetivo, seu impacto e
seu processo de tomada de decisões. Os cientistas,
como um grupo social importante, dotado de
aspirações, ideologias e pretensões de influência
é poder, são objeto de outros tipos de estudo
sociológico.
Ao mesmo tempo, a epistemologia não desapareceu, e
nem a preocupação com as eventuais relações entre
as idéias desenvolvidas pelos cientistas e seu
ambiente cultural, social e econômico. Só que,
hoje, a epistemologia e a sociologia do
conhecimento já não se fazem mais de forma vazia e
especulativa, mas se utilizando tanto quanto
possível da riqueza de informações proporcionada
pela história, pela sociologia, pela economia e as
demais disciplinas que, em seu conjunto, dão forma
à nova ciência da ciência.
As ciências da ciência são um campo de estudo
relativamente novo e de desenvolvimento bastante
desigual em nosso meio. No passado, eram os
próprios cientistas que se dedicavam, muitas
vezes, a escrever a história de suas disciplinas.
A coleção de trabalhos reunidos em 1955 por
Fernando de Azevedo (As Ciências no Brasil) é até
hoje insuperável pela riqueza, abrangência e
profundidade de muitos dos trabalhos que contém.
Estudos que tratam de examinar os condicionamentos
culturais, sociais e políticos da pesquisa
científica são mais recentes. O trabalho mais
abrangente nessa linha talvez tenha sido o
realizado nos anos 70 através do setor de estudos
e pesquisas da Financiadora de Estudos e Projetos
(FINEP), Formação da Comunidade Cientifica no
Brasil. As entrevistas realizadas para este estudo
com cerca de setenta entre os cientistas
brasileiros mais importantes estão depositadas no
Centro de Pesquisa e Documentação em História
Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação
Getúlio Vargas, para servirem de referência a
estudos futuros. A FINEP também deu origem a toda
uma linha de trabalhos sobre demanda, difusão
adoção e produção de pesquisa tecnológica, que
hoje continuam a ser desenvolvidos no Instituto de
Economia Industrial da UFRJ e em uma série de
outras instituições. A analise econômica da
tecnologia em seus diferentes aspectos é hoje uma
área de conhecimentos bastante desenvolvida
internacionalmente, e bastante forte em nosso
meio. A Universidade de São Paulo tem um núcleo de
estudos de história da ciência, e existe um
programa de administração para a pesquisa
científica e tecnológica junto à Faculdade de
Economia e Administração da USP.
A partir dos anos 80, o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
deu início a um programa de apoio aos centros de
ensino e pesquisa sobre política científica e
tecnológica em todo o país, reunindo cerca de 15
núcleos em diversos estados. O apoio do CNPq tem
consistido no financiamento de projetos de
pesquisa, difusão de informações bibliográficas,
promoção de encontros, vinda de professores
visitantes etc. Um exame dos projetos de pesquisa
desenvolvidos por esses núcleos mostra a
predominância de temas econômicos - ligados ao
processo de adoção e difusão de novas tecnologias
- e sociais, relacionados aos possíveis impactos
de novas tecnologias sobre o emprego e a
organização social do trabalho. Existem ainda
alguns estudos sobre política tecnológica, mas
muito poucos voltados para a organização da
atividade científica enquanto tal.
Finalmente, quase não existem trabalhos sobre a
história "interna" e os condicionamentos dos
próprios conteúdos da pesquisa científica e
tecnológica, incluindo os fluxos de conhecimento e
know-how entre o Brasil e o exterior e seu impacto
em nosso meio. Por outro lado, embora a maior
parte da pesquisa cientifica brasileira se
desenvolva nas universidades, ainda se sabe muito
pouco sobre a verdadeira repercussão que a
pesquisa tem no ensino, ou sobre a influência que
tem o ambiente universitário sobre a pesquisa que
nele se faz. Há, pois, um longo caminho a
percorrer para que a ciência da ciência se
consolide no Brasil e comece a contribuir de forma
efetiva para o melhor encaminhamento da pesquisa
científica brasileira. |