| O RESGATE DO FUTEBOL AMADOR NO MUNICÍPIO DE SOMBRIO | |
| Por:
MÁRCIO JOEL NUNES CAPÍTULO IV 4.1. Construindo a história do Ipiranga Para resgatar a trajetória do Esporte Clube Ipiranga, entre os anos de 1930 a 1960, fomos buscar subsídios na história de vida de algumas testemunhas daquele período. Os depoimentos foram usados como técnica de captação de dados. 4.1.1 - Delfino Sant'Helena
Um dos fundadores do Ipiranga Futebol Clube, primeiro time de futebol de Sombrio, em 1930, foi o senhor Delfino Sant'Helena. Hoje com 87 anos, sapateiro aposentado e ainda residindo no município, ele tem boas lembranças de quando chegou na cidade com 17 anos e com a ajuda do irmão, Dico, fez uma bola de couro. "O João talhou e eu costurei a mão", lembra. A prática de sapateiro exercida pela família ajudou na empreitada. A bola foi recheada com uma bexiga de boi e na falta de uma bomba de ar, foi enchida a sopro, com a ajuda de um canudo de mamona. Mais tarde seu Delfino 'viajou' a cavalo até Araranguá - já um povoado bem maior do que Sombrio - e comprou uma bomba para encher a bola. Na pequena Sombrio daquele tempo, a diversão dos irmãos Sant'Helena, além de Delfino e Dico havia João, era se reunir num gramado e jogar futebol. Logo eles começaram a juntar amigos até organizar um time, chamado então de quadro. As posições dos jogadores em campo também tinham outro nome. O goleiro era keiper (lê-se kiper), haviam ainda os alfa direito e esquerdo, os beke de espera e de avanço, o center alfa e o center four. Segundo seu Delfino, certa feita dois homens, chamados Jonas e Neri, passaram pela cidade pedindo pousada e foram acolhidos na casa de Procópio Sant'Helena, pai de Delfino. Dar 'poso' para viajantes, mesmo desconhecidos, era bastante comum naquela época em que a violência ainda não assustava. Vendo o interesse dos irmãos pelo futebol, um dos viajantes disse que em Porto Alegre jogava num quadro chamado Ipiranga e sugeriu que fosse dado este nome ao quadro que estava em formação na cidade. A sugestão foi aceita e nascia o Esporte Clube Ipiranga. Ainda de acordo com as lembranças de seu Delfino, o primeiro jogo do Ipiranga fora de casa foi em 1930, contra a localidade de Sanga da Areia e o segundo em Volta Grande, atual Jacinto Machado. Neste último, o placar foi de 1 x 0 para o Ipiranga, com gol de Delfino Sant'Helena. Além de ter feito o gol, seu Delfino lembra que lá foi-lhes servido somente arroz no almoço. Mais tarde, quando o Volta Grande veio jogar em Sombrio, a diretoria do Ipiranga fez uma sutil vingança, oferecendo "uma comida de hotel", no dizer de seu Delfino, com muita variedade e fartura. "De certo eles ficaram com vergonha", diz. Nesta partida o resultado foi de 0 x 0. Quem comandava a equipe na época era o escrivão Diomísio Pereira. O Ipiranga de 1930 não possuia uniforme. Cada um jogava com o calção e a camisa que tivesse. Todos usavam chuteiras feitas pelos Sant'Helena, menos um jogador chamado Inácio Lúcio, que preferia jogar descalço. "Era um quadrozinho muito pobre", explica seu Delfino. Mesmo assim eles treinavam todos os dias. "A gente chegava em casa e ia pro campo". Nos jogos nas tardes de domingo, algumas mulheres acompanhavam as partidas sentadas à beira do gramado. O campo ficava aonde hoje é a avenida Getúlio Vargas, mais precisamente no espaço aonde se localizam o "Bar do Tião" e a "Farmácia Sombrio". Em 1942, por iniciativa do padre João Reitz, foi transferido para os fundos da Igreja Matriz. Seu Delfino não sabe precisar em que ano ele saiu de Sombrio, voltando em 1945. Daí em diante diminuiu sua participação no Esporte Clube Ipiranga. Escalação do Ipiranga em 1930, citada por Delfino Sant'Helena: Kiper - Joca Silvano Beke de espera - Dico Sant'Helena Beke de avanço - Inácio Lúcio Alfa direito - Angelino Alfa esquerdo - Antônio Isoppo Center alfa - Pequeno (Nilmar) Meia direita - Delfino Meia esquerda - Tilinho Ponta direita - Tota Máximo Ponta esquerda - Mário Guellere Center Four - Nenê Canteiro Delfino Sant'Helena recorda que na pequena Sombrio de 1930, haviam poucas casas de comércio. A mais importante delas era a loja de Protásio Cunha, que ficava no terreno ao lado do atual prédio da prefeitura. Na agricultura se plantava principalmente mandioca, feijão e milho, vendidos primeiro a réis, depois a tostão e mais tarde a vintém, conforme ia mudando o nome da moeda brasileira. "Um trabalhador na roça ganhava dois mil réis por dia", conta seu Delfino. Ele próprio trabalhava de empregado na lavoura quando não havia serviço de sapateiro. Do cenário nacional, seu Delfino lembra com saudade do presidente Getúlio Vargas, que considera até hoje "um homem especial". Ele conta histórias sobre Vargas e Aderbal Ramos, que teria vindo a Sombrio quando candidato a governador de Santa Catarina. Ramos teria então se comprometido a construir um grupo escolar na cidade, caso se elegesse. O grupo escolar acabou sendo criado por um decreto de 15 de outubro de 1947, do interventor Udo Deeke. 4.1.2 - Antônio Pedro Coelho
Antônio Pedro Coelho, o seu Nico, aos 82 anos, aposentado, tem boas lembranças do Esporte Clube Ipiranga. Principalmente da sua primeira partida disputada pelo Ipiranga, contra Torres, em 1941. O "quadro"do Ipiranga foi a Torres de caminhão e, conforme seu Nico, ele fez o único gol da partida. Quando Torres veio a Sombrio, venceu o time da casa por 9 x 0. Nesta época o Ipiranga jogava com uma camiseta branca sem nome e sem número. O campo ainda era em frente a Igreja Matriz. Seu Nico calcula que disputou cerca de 20 partidas pelo Ipiranga, a maioria em casa, devido a dificuldade de transporte. Mesmo assim, o Ipiranga chegou a ir até Osório, jogando ainda na Lagoa da Serra, Araranguá, São João do Sul e Praia Grande. Muitas vezes a viagem era feita em lombo de cavalo. O leito da estrada que depois deu lugar a BR 101 era de areia. A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial mudou a vida daquele agricultor sombriense. Em 1942, seu Nico foi convocado pelo Exército e enviado primeiro a Curitiba e depois ao Rio de Janeiro. Não foi mais possível jogar futebol. "Em Curitiba a gente ainda jogava, dava tempo, mas depois vieram os americanos instruir os soldados e não deu mais", lembra. No Rio, seu Nico conheceu o estádio do Vasco da Gama, observando tudo com a curiosidade de um apaixonado por futebol. No entanto, durante todo o período da guerra os jogos foram suspensos. Seu Nico lembra que já haviam jogadores famosos, ganhando bem, mas não guarda o nome de nenhum na memória. O nome de Getúlio Vargas, presidente do Brasil entre 1930-1945, porém, ficou bem guardado por um fato especial. "Eu falei com ele. Eu ia subindo um morro no Rio e ele descendo. Me lembro igual agora", conta animado. Ao voltar para casa, em 1945, o jovem Nico deu adeus definitivamente ao Ipiranga. O beke de avanço do Ipiranga confirma a história contada por seu Delfino sobre a origem do nome do time, dado por um viajante que dormiu na casa dos Sant'Helena. Como Delfino, ele avalia que as diferenças do futebol da década de 40 para hoje são muitas. As principais é que os jogadores estão melhores e ganham muito bem. Só tem uma coisa que os dois discordam no futebol: seu Delfino torce para o Internacional e seu Nico é gremista. Mas se o futebol mudou para melhor, para seu Nico o mesmo não aconteceu na política. "Antes tinha mais respeito", garante. Sua primeira participação ativa na política local foi na campanha de Santelmo Borba, primeiro prefeito eleito de Sombrio, em 3 de outubro de 1954. Escalação do Ipiranga em 1941, citada por Nico Coelho: keiper - Joca Silvano Alfa direito - Chiquinho Alfa esquerdo - Gibi Beke de espera - Mauro Russo Beke de avanço - Nico Coelho Center alfa - Dico Sant'Helena Meia direita - Zé Borges Meia esquerda - Rocha Ponta direita - Nico Augusto Ponta esquerda - Lírio Colares Center four - João Sant'Helena 4.1.3 - Claudionor dos Santos
Lembrar do Esporte Clube Ipiranga traz lágrimas aos olhos de Claudionor dos Santos, 66 anos, oficial de justiça aposentado, conhecido pelo apelido de Babão. Babão não é natural de Sombrio, mas seu amor pela cidade é incondicional, tanto que lembra exatamente quando chegou a ela, no dia 23 de agosto de 1956, às 14 horas, vindo de Torres de barco pela Lagoa do Sombrio. Veio para ficar cerca de dois meses pintando a torre da Igreja Matriz, recém construída. Nunca mais foi embora. Em Torres Babão já jogava futebol e logo se entrosou com os atletas do Ipiranga, sendo apresentado a eles como um grande jogador. "Foram logo dando uma camiseta pra mim jogar", recorda. Ele não decepcionou, tanto que acabou virando profissional. A sua dedicação ao esporte era tanta que, sozinho, todo dia corria 25 voltas em torno do estádio Cairú, depois treinava com os companheiros. Entre 1956 a 1960, o Ipiranga esteve no auge, com amistosos marcados todos os domingos. "Não falhava um", diz Babão. Em 1957, porém, seu passe e de outro jogador do Ipiranga, chamado Dedé, foram comprados pelo Barro Branco, de Lauro Muller. O salário era de sete mil cruzeiros. A carreira durou pouco, pois em 1958 Babão casou e no ano seguinte voltou para Sombrio por motivo da saúde da esposa, que era da cidade. Mas continuou jogando até os 42 anos, quando passou a atuar como árbitro. Com Babão jogavam nomes conhecidos da política sombriense, como o ex-prefeito, Arlindo Cunha e Deoclésio Coelho. A equipe era tão boa que chegou a vencer 25 partidas seguidas. "Nosso time era fantástico. A gente ficava muito tempo sem saber o que era perder ou empatar", recorda Babão orgulhoso e com a voz embargada pela emoção. Escalação do Ipiranga citada por Babão, em 1956: Goleiros - Geraldo Isoppo, Lauro Raupp, Moacir Zanatta Zaga - Remi da Peroba - Patarracha Ponta direita - Tuta Lateral direito - Babão Lateral esquerdo - Zé Cobra Centro Médio - Adão Rocha Meia esquerda - Inocêncio Centro Avante - Zé Minhoca, Milton Rocha o Jogavam ainda Dedé, Coca, Zequinha Periquito, Juarês, Cecê, Deoclésio e Érico Coelho. 4.1.4 - Natálio Cunha
Natálio Cunha, 65 anos, foi presidente do Esporte Clube Ipiranga em 1960, quando a equipe começava a decair. Tanto que para disputar um campeonato fora foi fundado um outro time, chamado Independente. O resultado é que os dois times ficaram fracos. O Independente foi então desfeito e os atletas voltaram ao Ipiranga. Em sua breve vida, o Independente angariou cerca de quatro mil, recurso usado para adquirir a sede da Sociedade Recreativa Sombriense. A sede ficava localizada no centro da cidade, aonde hoje está instalada a Globo Seguros. Natálio, que presidia o Ipiranga, foi escolhido presidente da Sociedade também. Teve a idéia então de unir as duas entidades e fundar a Sociedade Recreativa e Esportiva Ipiranga, com duas diretorias distintas. A proposta não foi aprovada devido ao racismo. "Na assembléia levantou um sócio - não vou dizer quem em respeito a sua memória - que disse que muitos negros vinham em Sombrio nos times que jogavam contra o Ipiranga. Ele não queria que estes negros entrassem na sede do clube", narra. O projeto foi rejeitado. O fato é classificado por Natálio como 'uma vergonha'. Segundo ele, apenas um negro era admitido na sociedade da época. Tratava-se de Horávio Hipólito da Silva, que ocupava o cargo de inspetor de ensino e era considerado uma autoridade. O racismo, que ainda não era crime, era bastante comum, admite Cunha. O futebol era mais democrático em relação a cor. A camisa mais tradicional do Ipiranga era verde com colarinho branco e havia outra azul. O Independente usava uniforme vermelho e como foi desativado cedo, o uniforme permaneceu quase novo, podendo ser reaproveitado. Daí veio a idéia de Natálio: ele foi a Porto Alegre e lá encomendou uma bandeira com fundo vermelho com uma lista azul e uma bola no centro aonde se lia Esporte Clube Ipiranga. O time voltou a se organizar e a fazer fama. "Não perdia pra ninguém, era muito bom. Nosso time tinha que jogar com profissional, porque quando jogava com os pequenos era só goleava", gaba-se Natálio. E quando o primeiro time profissional veio jogar em Sombrio, foi uma grande festa. O Comerciário Atlético Clube, de Criciúma, jogava na primeira divisão do futebol catarinense e foi recebido na entrada da cidade por uma multidão. Na recepção o prefeito José Tiscoski entregou aos visitantes a chave da cidade. Também foi a primeira vez que um árbitro da Federação Catarinense veio apitar uma partida no município. Partida que o Ipiranga perdeu por 4 x 1. 4.1.5 - Deoclésio Coelho
A convivência de Deoclésio Coelho, 66 anos, comerciante, com o Ipiranga começou ainda em criança. Ele gostava de ficar atrás da trave assistindo as partidas e guardou na memória alguns dos primeiros jogadores, como o goleiro Joca Silvano e o negro Gibi. "Até o Afonso Ghizo jogou aqui quando eu era pequeno", diz. Mas a lembrança mais marcante de sua infância relacionada ao futebol, foi um incidente envolvendo jogadores do Ipiranga e participantes de um casamento. "Eles tavam jogando e o pessoal do casamento passou a cavalo no meio do campinho, pra ir pra matriz velha. Foi uma briga feia. Derrubaram até a noiva do cavalo, e os convidados davam de relho nos jogadores", recorda divertido. Na juventude, seu Deoclésio ajudou a plantar a grama do novo campo, transferido para traz da Igreja Matriz, sob a orientação do padre João Reitz. Os trabalhos para implantação do campo tiveram início em 17 de agosto de 1942 (Reitz,1948). De acordo com seu Deoclésio, na inauguração do estádio Cairú, o farmacêutico Agenor Rocha, que era bastante rico, foi de avião a Porto Alegre buscar o fardamento do Ipiranga, nas cores azul e branco. A partir de 1976, as camisas passaram a ser verde e branca. Já as melhores chuteiras eram feitas do couro da cabeça do boi, mais resistentes. O mais curioso é que apesar de tanta paixão, seu Deoclésio nunca fez um gol pelo Ipiranga. Sua justificativa é de que jogava na defesa, numa época em que quem jogasse nesta posição não ultrapassava o meio do campo. A explicação parece razoável, já que vários depoentes elogiaram o jovem Coelho como sendo um 'grande quarto zagueiro'. Na avaliação de seu Deoclésio, o Ipiranga foi responsável por grande avanço social em Sombrio, dando origem a clubes e outras entidades, além da aproximação entre as pessoas. Era comum sempre antes e depois das partidas os jogadores se reunirem na casa de um deles - muitas vezes a sua - para colocar a conversa em dia. Neste trecho da conversa, ele confirma o que já havia sido dito por Natálio Cunha sobre o racismo. "Se um negro fosse dançar na Sociedade o pau pegava. A moça branca que dançasse com um negro tava na rua", afirma. Muito depois, por volta de 1970, a exceção foi o professor Horávio, conforme já citado. "Ele foi o primeiro negro a dançar no Tênis Clube, mas pro pessoal engolir não foi fácil ", recorda. Plantel do Ipiranga citado por Deoclésio Coelho, em 1959: Goleiro - Daia, Lauro Raupp, Neri Padeiro, Everaldo Ferreira Zaga - Dedé, Remi, Arlindo Cunha, Deoclésio Meio de campo - Tatuíra, Inácio Quinca China, Valadares, Cecê, Leca o Vários jogadores ocupavam a mesma posição e a escalação era feita de acordo com a disponibilidade de cada um no dia dos jogos. A história da briga durante o cortejo de casamento, também faz parte das lembranças da família Vignale, embora com algumas modificações, como é comum em relatos que se baseiam na tradição oral: O Casamento Meu pai relatou-me este fato apenas uma vez e jamais o esqueci, exceto alguns detalhes, como o dia do mês e o ano. Lembro de me haver falado em veranico e isso me dá a certeza de que o fato ocorreu nos primeiros dias de maio, que é quando ocorre um pequeno verão em pleno outono, aqui nesta região. Quanto ao ano, não posso precisar, mas deve ter sido nos primeiros anos da década de 40, provavelmente em 1941, já que ainda hoje ouço suas palavras levemente carregadas com sotaque italiano: "Você não tinha mais de quatro anos, na época". Segundo sua narrativa, Sombrio era então uma pequena vila pertencente ao município de Araranguá, mas já ensaiava os passos para se tornar a cidade que aquele piemontês escolhera para morar, constituir família e morrer aos 87 anos: "Era uma vila pobre, mas já tínhamos o nosso time de futebol, o Esporte Clube Ipiranga, fundado na década de 30", contava ele com certo orgulho, certamente por ter sido um dos atletas. Foi num dos jogos do Ipiranga que aconteceu este fato. O campo de futebol era praticamente aonde é o centro da cidade agora. A avenida Nereu Ramos não passava de uma cancha reta onde a comunidade assistia aos domingos as corridas de cavalos - as carreiradas como se costumava dizer na época. O início era onde hoje se situa a Sombrio Tênis Clube, e o final, num velho umbú, onde está construída a atual prefeitura municipal. "Era um sábado à tarde", contava meu pai. "Treinávamos para um jogo importante que aconteceria no domingo, em Torres". Para chegar à igreja, quem vinha do norte, tinha como melhor opção passar pelo campo de futebol. E não deu outra. De repente, surgiram a cavalo os noivos seguidos de uma enorme cavalaria, a galope, rumo a pequena igreja localizada onde hoje se situa a residência de Antônio Gomes, na rua Caetano Lummertz. A noiva ia à frente, seguida do noivo, um pacato rapaz da lavoura. Entraram campo a dentro sem dar a mínima importância ao futebol. Um dos jogadores pulou na garupa do cavalo do noivo e o derrubou da montaria, originando o tumulto. Homens berravam brandindo o relho, enquanto jogadores e convidados iam despencando um a um de cima dos cavalos, exceto a noiva, que semeava bordoadas para todos os lados, animando os convidados e os noivos a não se deixarem intimidar pelos jogadores. "Foi uma verdadeira bagunça", contava meu pai. "Era nariz sangrando, costelas ardendo, roupas rasgadas e sujas, cavalos soltos correndo em disparada pela vila, gente gritando, um verdadeiro pandemônio. O fuzuê só terminou quando o padre apareceu. Os convidados foram procurar os cavalos, os jogadores do Ipiranga foram limpar o sangue dos narizes e tudo voltou a normalidade. "Não sei se é verdade, porque não fui na igreja, mas o Tota me contou que a noiva procurou o noivo no fim da briga e não o encontrando dirigiu-se a igreja. Aos poucos foram chegando os convidados, uns a cavalo, outros puxando os animais pela rédea, ma todos estavam lá. - "Mas, e o noivo?", perguntei. - "Bem, o noivo estava escondido na sacristia esperando a briga acabar". Não fiquei sabendo se o casamento realizou-se ou não, mas pela valentia da noiva, acredito que não . 4.1.6 - Deldi Garcia
Deldi Garcia, 71 anos, alfaiate aposentado, é saudosista. Acha que o esporte da época do Ipiranga era bem melhor. "Era difícil nós perder uma partida", se orgulha. A sociedade também. "Todo jogador ajudava a comprar as camisas. Existia mais colaboração que hoje. O povo era unido, tenho saudade daquele tempo", confessa. Era essa união que garantia a presença em campo do jogador Remi, já citado por outros depoentes. Remi morava na Peroba, comunidade interiorana que hoje pertence a Santa Rosa do Sul, distante cerca de 20 quilômetros de Sombrio. Alguém cedia uma carroça ou caminhão para buscar Remi em casa. Ele vinha já na véspera e ficava na casa de seu Deldi. Também foi o trabalho coletivo que permitiu que o gramado do campo fosse plantado a dedo, ficando com uma qualidade que era orgulho dos jogadores. A torcida prestigiava tanto trabalho. "Tapava tudo de gente", de acordo com seu Deldi. Deldi chegou em Sombrio em 1949, logo entrou no Ipiranga, jogando até 1960. O presidente do time então era Antônio Sant'Helena, o seu Dico e o fardamento era em verde e branco. Uma das lembranças mais marcantes de seu Deldi é de um dia em 1950, quando o Brasil jogou com o Uruguai, no Maracanã, pela Copa do Mundo. Naquela tarde o Ipiranga disputava um amistoso no Ermo. Pelo rádio, os jogadores acompanhavam a derrota da seleção brasileira no Rio de Janeiro. "Eu ia na beira do campo e perguntava como tava o jogo", recorda. |
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