O RESGATE DO FUTEBOL AMADOR NO  MUNICÍPIO DE SOMBRIO

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Por: MÁRCIO JOEL NUNES

CAPITULO III

3.1. História de Sombrio

O município de Sombrio, cujo nome desperta curiosidade, é uma bela comunidade do Extremo-Sul de Santa Catarina, distante apenas 30 km da fronteira do Rio Grande do Sul e 245 km de Florianópolis, a capital catarinense.

Sombrio pertence a microrregião de Araranguá, possui uma área de 142,7 km2, limita-se ao Norte com os municípios de Araranguá e Ermo; ao Sul, com Santa Rosa do Sul; a Oeste, com o município de Jacinto Machado e a Leste com Balneário Gaivota. Está integrado ao ecossistema hidrográfico da bacia do rio Mampituba, aonde se destaca a Lagoa do Sombrio (FARIAS, 2000).

Pelas projeções do IBGE em 1998, Sombrio tem uma população de 22.657 habitantes, sendo 11.348 do sexo masculino e 11.309 do sexo feminino, com uma densidade demográfica de 158.7 habitantes por km2. Nas eleições deste ano estavam inscritos no município de Sombrio 15.254 eleitores, representando cerca de 0.34% do eleitorado catarinense, o que o coloca como o 44º município com maior número de eleitores. Os dados indicam que 67.3% da população está apta a votar, isso caracteriza uma população bastante politizada e com forte participação de jovens entre os eleitores.

Especula-se a partir da tradição oral que o nome Sombrio tenha sido dado pelos primeiros povoadores da região de Torres. A história já tem mais de dois séculos. Passando pelo litoral, pela altura do Morro dos Conventos, ao povoadores chegam pela primeira vez as terras de Sombrio (hoje Balneário Gaivota) em viagem pelo Sul. Alguns destes desbravadores, provavelmente oriundos de Laguna, ali chegando deram ao lugar o nome de Torres. De lá, descortinando ao Norte vislumbravam um morro escuro, sombrio, em cujo sopé desfraudava-se uma lagoa. Em expedição ao local, constataram as sombras das grandes figueiras que se erguiam às margens da lagoa, tornando ainda mais escura as águas. O morro, ainda distante da expedição, mostrava-se sombrio, nome pelo qual ficou conhecido (FARIAS, 2000).

Outra hipótese bem aceita é de que os tropeiros alimentavam suas boiadas junto a lagoa antes de se aventurarem na subida da serra, utilizando a sombra das figueiras para repousarem. Face ao movimento das águas do rio da Lage, associavam toda massa d’água da região do rio, identificando a área de repouso como sendo sombra do rio, que evoluiu para sombrio. Tal hipótese parece mais lógica, pois o nome Sombrio não é mencionado em documentos dos primeiros desbravadores, o que parece indicar que foi colocado por pessoas que usavam a região como caminho de passagem (FARIAS, 2000).

O território que constitui o município era habitado pelos índios carijós. O primeiro morador europeu foi João José Guimarães, natural de Portugal, que chegou em 1833 (REITZ,1948).

Sombrio, como outras povoações do Sul catarinense, resultou da fusão de diversas culturas: índios, luso-açorianos, alemães, italianos, poloneses e outros povos que mais recentemente ajudaram a construir a sociedade sombriense. O resultado são valores culturais bastante originais.

Nas décadas de 30 e 40, o município de Sombrio era essencialmente agrícola, com a mandioca levando a dianteira sobre as demais culturas. O milho também era bastante cultivado. Nas localidades de Peroba e Sanga da Areia a banana era a principal atividade. Hoje estas duas localidades pertencem a Santa Rosa do Sul.

A indústria mais desenvolvida era a dos produtos da mandioca, com vários engenhos e algumas fábricas de polvilho e fécula. Da cana-de-açúcar fabricava-se regular quantidade de açúcar e aguardente. Em algumas casas de descendentes de italianos, era produzido um excelente vinho. A tecelagem caseira estava em uso. As mulheres trabalhavam com afinco no trançamento de chapéus. Outra indústria notável era a de louça de barro, tijolos e telhas. As olarias achavam-se principalmente perto da vila de Sombrio.

Em 1947 foram apurados os seguintes salários médios em Sombrio, sendo que o valor do salário mínimo de então era de 240$00 réis.

 TABELA 1 – Salários médios de Sombrio

Discriminação

Salário em Cr.$

Arador

20,00

Carpinteiro

40,00

Marceneiro

45,00

Motorista (mês)

900,00

Cortador de cana

18,00

Lenhador

18,00

Ferreiro

40,00

Tropeiro

30,00

Trabalhador de enxada (homem)

18,00

Trabalhadora de enxada

12,00

Operário de fábrica

20,00

 Os preços médios dos gêneros alimentícios para o consumidor em 1947 foram os seguintes:

 TABELA 2: Preços médios dos gêneros alimentícios

Gênero

Unidade

Preço médio em Cr.$

Abóbora

quilo

0,50

Arroz

quilo

2,50

Açúcar

quilo

4,50

Banana

dúzia

1,00

Banha

quilo

16,00

Batata doce

 

0,60

Batatinha

 

2,50

Café

 

10,00

Carne de vaca

 

9,00

Farinha de mandioca 

 

1,00

Sal

 

1,20

* Fonte: REITZ, Raulino. Paróquia de Sombrio, 194

3.2. Ipiranga era orgulho no esporte

Na história de Sombrio ainda é grande o orgulho que a cidade tem pelo Esporte Clube Ipiranga. Atuando desde 1930, o time fazia parte da vida da pequena e pacata cidade, com disputas todos os finais de semana. Contava com uma grande torcida, inclusive feminina, e era motivo de inveja até de municípios maiores, como Araranguá e Criciúma
Antônio Sant’Helena, image002.jpg (6788 bytes)o Dico, que hoje dá nome ao estádio da cidade, com seu irmão Delfino foi o fundador e primeiro presidente do clube. O Ipiranga cresceu e se tornou uma paixão, a ponto dos seus membros, ao tomar conhecimento de bons jogadores em outros municípios, se esforçavam para arranjar-lhes emprego de modo que estes fossem convidados para vir morar em Sombrio e reforçar o quadro.

Alguns poucos remanescentes dos anos 30, entre eles Delfino Sant’Helena, ainda recordam bem dos tempos áureos do Ipiranga.

Na lista de ex-atletas do Ipiranga estão quase todos os cidadãos mais conhecidos da cidade, como Lauro Raupp, Geraldo Isoppo, Deoclésio Coelho e Arlindo Cunha. Dois jogadores chegaram a se tornar profissionais, Claudionor Santos e Didier Clodoaldo Nunes, o Dedé, vendidos para o Barro Branco, próximo a Lauro Muller.

Jogadores do Ipiranga em 1960, de acordo com fotografia do time da época cedida por Delonei Joel: Macário Borba, Tadeu, Docão, Valdir Amorim, Zé Cobra, Moacir Zanatta, Lédio Gomes, Dirlene, Malária, Eufrásio, Nilton Rocha, Dirlei Garcia, Vânio Velho, Cheréu, Juarês Freitas, Ventana, Amilton Lummertz.

3.3. A Sociedade Esportiva Recreativa Ipiranga

No dia 20 de março de 1933 foi feita uma reunião a fim de organizar uma sociedade Esportiva e Recreativa, reunindo diversas pessoas na residência de Domício Pereira. A idéia foi aprovada e sugeriu-se que a sociedade adotasse o nome do Ipiranga, servindo-se das cores azul e branco.

Outras reuniões se seguiram tendo sido eleita uma diretoria para dirigir os primeiros passos do destino da entidade, assim constituída:

Presidente: Juventino Pereira
Secretário: Domício Pereira
Diretor esportivo: Antônio Sant’Helena

A sociedade contou inicialmente com 75 sócios fundadores (PEREIRA, 1972).

Segundo o livro de  Juventino Pereira (1972), o primeiro jogo de inauguração da sociedade foi com o time Caverá, tendo dado o primeiro chute na bola a madrinha daquele time, Tertuliana Silva.

Nos livros e atas do clube, até julho de 1933, vê-se os nomes dos sócios contribuintes e fundadores com as quantias ofertadas em réis, logo no início da fundação.

 Alguns deles são:

 Tabela 3: Sócios contribuintes e fundadores com as quantias ofertadas em réis

Nome

Quantia em mil réis

José Quartieiro

5

Alberto Santos

5

Antônio Damásio Peres

2

Caetano Lumertz

5

Protásio Cunha

5

José Tiscoski

6


Esta primeira sociedade de Sombrio funcionou por sete ou oito anos, tendo adquirido sede própria na avenida Nereu Ramos, que por razões políticas foi fechada por um ano. A idéia de vender o patrimônio não foi aceita. Em 1941, o prédio do clube foi doado para que nele funcionasse uma escola. O prédio foi vendido e o dinheiro obtido ajudou na aquisição de um terreno aonde o Estado comprometeu-se a construir uma escola. No local foi construído o Grupo Escolar Catulo da Paixão Cearense, o maior e mais tradicional colégio do município.

3.4. Praça de Esportes Cairú

No dia 17 de agosto de 1942, teve início em Sombrio a construção da primeira etapa da praça de esporte. Em 13 de setembro a obra recebeu o nome de Praça de Esporte Cairú, para perpetuar a memória dos brasileiros mortos no afundamento do navio Cairú, primeira embarcação afundada pelos alemães, fato que levou o Brasil a entrar na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos aliados.

No aviso paroquial do domingo de 13 de setembro de 1942, o vigário da paróquia, padre João Reitz, idealizador da praça, falou:

 
“A Praça de Esportes Cairú é um monumento patriótico que o povo de Sombrio vai erigir para perpetuar a memória dos marinheiros perecidos no vapor Cairú afundado pelos inimigos do Brasil. Quem não der seu auxílio não se mostra solidário com os bons marinheiros que amam sua pátria” (Transcrição do aviso paroquial nº 2.368, de 13/09/1942).
 
De acordo com relatos orais, o padre era grande  incentivador do esporte e nos domingos em que havia jogo do Ipiranga em Sombrio, o fato era noticiado por ele depois da missa, convidando os paroquianos para prestigiar o evento.

A construção gradativa da praça incrementou sobremodo a vida desportiva em Sombrio. Além dos jogos dominicais e alguns diários, todos os anos era realizada uma parada esportiva em que havia distribuição de prêmios para os vencedores de cada classe de esporte.

O campo de futebol se tornou a parte mais importante e a mais dispendiosa do projeto da Praça de Esportes Cairú. Orientados conforme a planta oferecida pelo Departamento Estadual de Educação, foram iniciados os trabalhos em 17 de agosto de 1942. O campo, que existia até o início da década de 90, situava-se aos fundos da igreja matriz. Sendo chamado de Estádio Cairú, passou a ser o campo do Ipiranga.


 3.5. Atual estádio leva o nome Antônio Sant’Helena

 Um projeto de lei do vereador Alzerino João Scheffer, de março de 1992, dá nome de Antônio Sant’Helena ao estádio municipal que seria inaugurado.

 “...O Estádio Municipal que ora se inaugura, merece uma denominação que homenageie um indivíduo realmente esportista, e por uma questão de oportuna justiça, apresentamos o nome de Antônio Sant’Helena, seu Dico, como ficou entre nós conhecido”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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