O RESGATE DO FUTEBOL AMADOR NO  MUNICÍPIO DE SOMBRIO

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Por: MÁRCIO JOEL NUNES

CAPÍTULO I


1.1. A Era Vargas

Para o historiador Joel Rufino (1998), chama-se Era Vargas o período da história do Brasil iniciado em 1930, quando Getúlio Vargas chegou ao poder, deixando marcas inegáveis nos rumos políticos e econômicos do país. Getúlio tornou-se presidente da República por meio de um movimento popular e militar - a Revolução de 1930 - que derrubou o governo constitucional de então. Permaneceu no poder até 1945. Retornou a presidência em 1951, desta vez pelo voto popular e ficou no cargo até 1954, ano de sua morte. 

Ainda de acordo com Rufino (1998), o que chamamos Era Vargas não diz respeito apenas a um mandato formal de governo ou a duração de um plano econômico. Chama-se Era Vargas o conjunto das políticas econômicas e sociais introduzidas no país a partir de 1930, que marcaram de maneira indiscutível o processo de industrialização, urbanização e organização da sociedade brasileira. As repercussões destas iniciativas foram tão fortes que no limiar do novo século, sua influência ainda é percebida. Tratou-se de uma maneira de dirigir o país, em que o governo - na visão varguista - teria o papel de mostrar o caminho para os homens, de propor soluções, e até mesmo implementá-las se julgasse conveniente. Ao governo e suas instâncias de administração e defesa, caberia ordenar aquilo que achasse mais conveniente aos homens. Dessa maneira, não caberia ao governo atender aos interesses e desejos da sociedade, conforme postulado pela teoria democrática liberal, mas sim apontar-lhe os caminhos a serem tomados e a maneira como ela deveria agir e se comportar. Era o que se convencionou chamar de estado intervencionista. Este estado não seria um executor da vontade soberana do povo, mas senhor do povo. 

Dentro desse espírito, a Era Vargas foi marcada por desenvolvimento econômico, controle sobre trabalhadores e sindicatos, planejamento estatal, legislação social, investimentos públicos e, principalmente, pelo papel atribuído ao Estado como agente econômico. Era um Estado centralizador, intervencionista e planejador. Do ponto de vista político, foi marcado pela precariedade das liberdades públicas, pela fraqueza da participação, por entraves legais a organização e a expressão de opiniões (PILETTI, 1995). 

Nos anos 30, Vargas passou a atuar como único chefe da nação e em nome de um projeto que julgava ser o melhor para o país fechou o Congresso, reprimiu as liberdades públicas, isolou os descontentes, perseguiu inimigos, cooptou possíveis opositores e projetou-se como líder popular, como populista e estadista.

Para Piletti (1995), o estado mínimo, lema dos liberais clássicos e dos neoliberais, é exatamente o oposto do que se concebeu na Era Vargas. Na verdade liberal, o melhor Estado é o que menos governa, enquanto na concepção varguista o bom Estado é aquele forte e centralizador. Segundo esta última concepção, a sociedade brasileira seria incapaz de levar a cabo, sozinha, qualquer projeto econômico ou educacional e por isso o Estado precisaria ser grande. Embutida nesta visão estava a idéia de que os empresários brasileiros não tinham visão de longo prazo, não eram sensíveis aos interesses nacionais, visavam apenas ao lucro rápido e sem risco e por isso o Estado teria de tomar para si a tarefa de desenvolver o país. 

Além do mais, haveria certas áreas que não interessariam ao empresário particular devido a exigência de grandes capitais sem retorno a curto prazo. Seria o caso de áreas estratégicas como siderurgia, petróleo, comunicações, tecnologia. Por tudo isso, caberia ao Estado ir na frente, abrindo caminho para o empresariado.

A vitória da tese intervencionista acabou exigindo a criação de inúmeras empresas estatais que empregavam muitos funcionários e formaram uma forte burocracia para gerenciar iniciativas econômicas do governo. O Estado passou a regular, por exemplo, o que era prioritário produzir no país, os preços de certos produtos, os salários dos trabalhadores, as taxas de juro e a maneira como os sindicatos deveriam atuar. 

Ao fim de algumas décadas, esse modelo centralizador passou a ser questionado sem que se conseguisse desmontá-lo com facilidade. 

Ao lado de tudo isso, a Era Vargas caracterizou-se pela forte presença dos militares na política. Com Vargas, os militares ganharam uma notoriedade inédita e tornaram-se parceiros políticos de todas as horas. O Exército, que apoiou Vargas em 1930, acabou ganhando espaços cada vez maiores na administração das coisas públicas e seu poder intervencionista transformou-se em uma ameaça constante à democracia. Nessa escalada, nem Vargas foi poupado: os mesmos militares que o puseram no poder o depuseram duas vezes. 

Sob a Era Vargas, o Brasil deixou de ser um país agrário-exportador para se transformar em urbano-industrial. Se esta virada teria se dado mesmo sem Vargas, não se pode prever. 

É impossível pensar o passado de maneira hipotética. Não temos condições de saber o que seria o Brasil se Vargas não tivesse governado o país por tantos anos. O que se sabe é que sob sua liderança o Brasil mudou de perfil. Em 1930, quando ele chegou a presidência, havia cerca de 30 milhões de habitantes no Brasil e apenas 25% deles viviam na zona urbana. Em fins do século XX, a população brasileira inverteria completamente esse quadro: apenas 20% moram na zona rural. Grande parte das mudanças vividas pelo país desde então foram concebidas no governo de Vargas (RUFINO, 1998).


1.2. A REVOLUÇÃO DE 30 E A CHEGADA DE VARGAS AO PODER

O gaúcho Getúlio Vargas foi formado em meio a uma cultura política de reverência ao chefe, ao caudilho, e como tal projetou sua carreira. 

A sua transformação em chefe revolucionário se deu mais em função das circunstâncias políticas do que por conta de qualquer habilidade pessoal especial. A grande habilidade consistiu em saber tirar partido das situações. Ele mesmo bem definiu essa característica: "Não sou um oportunista. Sou um homem das oportunidades. Se o cavalo passar encilhado na minha frente, eu monto" (RUFINO,1998). 

E foi o que fez quando começou a ser articulada a sucessão do presidente da República, Washington Luís, ainda em 1928, no mesmo ano em que assumia o governo do estado, até a eleição em 30. 

Washington Luís era paulista e pela convenção deveria ceder a vez a um mineiro. No entanto, o presidente indicou outro paulista, quebrando a aliança que ficou conhecida como política do café-com-leite. 

Nessa ocasião, Vargas foi convidado a se aliar ao governador de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, para articular uma candidatura de oposição. Vargas tirava então o Rio Grande do Sul de sua posição natural de acomodação para lançá-lo em uma contenda que representava a ruptura com o governo federal. Acabou sendo ele mesmo escolhido para candidato e para apoiá-lo foi criado um movimento político chamado Aliança Liberal. 

A candidatura de Vargas unificou a política do estado em torno de seu nome e recebeu, além do apoio de Minas Gerais, a adesão do estado da Paraíba, que entrou com o candidato a vice-presidente, João Pessoa. Tinha o apoio também de dissidentes de São Paulo. Registre-se que neste movimento que lançou Vargas como candidato participaram várias das mais importantes figuras da política nacional que garantiram a vitalidade da campanha e sua articulação no plano federal. Vargas, contudo, partia para a disputa após um acordo firmado com o governo federal (à revelia de seus aliados), no sentido de respeitar o resultado das eleições. Além do mais, a própria Aliança Liberal que sustentava sua candidatura defendia um programa que pouco variava dos padrões da época. Tudo fazia crer que o lado vencedor procuraria a reconciliação, mas não foi o que aconteceu. As eleições foram realizadas no dia 1º de março de 1930 e Vargas derrotado numa competição em que não faltaram fraudes de ambos os lados. O que mudou é que os perdedores não aceitaram a derrota. Lembre-se que na República Velha o voto não era secreto e apenas 5% da população votava (PILETTI,1995). 

Perdidas as eleições, Vargas rapidamente se acomodou aos resultados, mas seus aliados não se conformaram. Entre eles destacava-se Osvaldo Aranha, peça fundamental nas articulações que acabaram levando ao movimento revolucionário. A conspiração seguiu com idas e vindas até que em 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado em Recife. O assassinato teve motivação passional, mas os articuladores da Aliança Liberal logo tentaram qualificá-lo como mais um dos desmandos do governo federal. Com esse episódio o movimento ganhava fôlego para ser deflagrado em 3 de outubro seguinte. A revolução foi desencadeada simultaneamente em Porto Alegre, onde a adesão do Exército foi quase imediata, em Belo Horizonte e no Nordeste. 

Em poucos dias a revolução era vitoriosa em quase todo o país, com a adesão de grande parte da população, de militares e das polícias estaduais. Vargas assumiu o comando das tropas do movimento. Constatada a grande possibilidade de derrota, Washington Luís renunciou a presidência em 24 de outubro, assumindo uma junta militar composta por três generais. Vargas foi reconhecido como chefe de um governo provisório e a 3 de novembro de 1930 assumia a presidência. Começava então um período conhecido como governo provisório, mas que para a oligarquia paulista mais parecia uma eterna ditadura. 


1.3. O governo Vargas

O novo governo começou atendendo as principais reivindicações dos trabalhadores: criou o salário mínimo, estabeleceu a jornada de oito horas de trabalho, estabeleceu o repouso semanal remunerado e obrigatório, as férias pagas, a indenização pelo tempo de serviço quando o trabalhador fosse demitido, etc. As mulheres conseguiram o direito de votar. Mas, por outro lado, o governo também começou a exercer um controle muito grande sobre os trabalhadores, os sindicatos deveriam obedecer a regras determinadas pelo governo. A situação do povo não melhorou muito, apesar da propaganda do governo que apresentava Getúlio como 'pai dos pobres' (PILETTI,1995). 

Depois de enfrentar, em 1932, movimentos dos paulistas que queriam fim do governo provisório, Vargas realizou eleições em maio do ano seguinte. Elas apresentaram algumas novidades: voto secreto e obrigatório, as mulheres votaram pela primeira vez, a organização e a fiscalização foram feitas pela Justiça Eleitoral, que não existia na República Velha, quando as votações eram organizadas pelo governo que sempre saia vencedor e 250 representantes na Constituinte foram eleitos pelo voto popular e 50 foram escolhidos pelas associações de trabalhadores. A Assembléia Constituinte determinou que Vargas exerceria o mandato até o dia 3 de maio de 1938. 

A Constituição de 1934 foi a Segunda Constituição republicana. Era uma Constituição bem mais preocupada com os problemas sociais. Pela primeira vez colocou-se um capítulo sobre educação e cultura, instituindo, entre outras coisas, o ensino primário obrigatório e gratuito. Era uma época de intensos debates, de muitas manifestações. Todos queriam influir nos novos rumos que o Brasil haveria de seguir. 

Mas a idéia de deixar o poder não agradava Getúlio, que em 1937 deu um golpe que instalou o Estado Novo. Agora ele continuaria no poder com força total. Nada de eleições, nada de democracia. A nova Constituição - que já estava pronta - foi 'dada'ao país no mesmo dia. Entre os poderes que ela concedia ao presidente estavam: poder de fechar o Congresso Nacional, de acabar com os partidos políticos, acabar com a liberdade de imprensa, poder de nomear interventores nos estados. 

Portanto, todos os poderes estavam na mão do presidente, que se tornava um ditador. Para fazer propaganda de Getúlio e do Estado Novo, foi organizado o Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP. O rádio foi muito utilizado para ele falar aos 'trabalhadores do Brasil'. 

A economia também passou a estar diretamente subordinada ao presidente da república, que governava com o auxílio de conselhos técnicos. O governo do Estado Novo deu muita importância à indústria nacional. Para ajudar a desenvolver a indústria, planejou a Hidrelétrica de Paulo Afonso, fundou a Companhia do Vale do Rio Doce, criou o Conselho Nacional de Petróleo. Mas a obra mais importante foi a fundação da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, em 1943. Sua importância foi muito grande, pois passou a fornecer aço à indústria nacional. Com isso, toda a indústria se desenvolveu. 

Getúlio permaneceu no poder até 1945, quando foi deposto pelos militares. No entanto, quem pensou que com a destituição Getúlio estava afastado para sempre do poder, enganou-se. Nas eleições de 1950, ele concorreu à presidência pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e derrotou facilmente seus adversários. 

De volta ao cargo em 31 de janeiro de 1951, começou a colocar em prática sua política popular e nacionalista, que consistia em medidas que beneficiavam os trabalhadores e favoreciam as empresas nacionais. A principal dessas medidas foi o segundo aumento do salário mínimo em 100%. 

A política nacionalista de Vargas ficou ainda mais evidente em outubro de 1953, quando criou a Petrobrás. Os inimigos que arranjou, porém, eram bem poderosos: as empresas multinacionais como Esso, Texaco e Shell, que queriam explorar o petróleo brasileiro. 

Na avaliação de Claudino (1997), estava claro que com todos esses inimigos seria muito difícil para Vargas permanecer no poder. As pressões contra seu governo aumentavam. Os grandes empresários, as multinacionais, a embaixada dos Estados Unidos, os grandes jornais, alguns chefes militares, todos estavam contra. Ao ser pressionado para renunciar, Vargas teria dito: "Daqui só saio morto". Por fim concordou em licenciar-se do governo, mas no dia 24 de agosto de 1954 se suicidou com um tiro no peito. 


1.4. O futebol se transforma no esporte das multidões

A primeira Copa do Mundo de futebol foi realizada em 1930, ano em que Getúlio Vargas chegou ao poder. O evento no Uruguai foi um grande incentivo para o esporte brasileiro, com as massas passando a invadir os estádios. Naquela competição, o jogador brasileiro de maior destaque foi um negro, Fausto, que ficou conhecido como a 'maravilha negra' (RUFINO, 1998).

Uma nova mentalidade cristalizava-se em relação ao esporte e em 1938, na Copa da França, a seleção brasileira já assombrava a Europa pela qualidade individual de seus jogadores. A essa altura, o futebol já era o 'esporte das multidões', estimulado pelo próprio presidente Vargas, que fazia seus tradicionais comícios de 1º de maio em estádios. 

De acordo com alguns historiadores, entre eles Joel Rufino, o apoio do governo ao futebol era estrategicamente elaborado como forma de canalizar os sentimentos da população para os times.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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