FURNAS DE SOMBRIO

 

A história das Furnas de Sombrio é recheada de fatos, suposições e lendas que a tornam tão fascinante quanto a formação desse monumento esculpido pela natureza.

Como defendem alguns cientistas, a milhares de anos atrás, pressupõem-se que na Terra havia muito mais água. Os oceanos teriam coberto uma parte bem maior da atual superfície terrestre. Isso nos faz acreditar que toda esta faixa de terra, onde se localiza o município de Sombrio, tenha sido coberta pelas águas do Atlântico durante muito tempo.

Em 1947 o Padre Raulino Reitz escreveu em seu livro “Paróquia de Sombrio”, publicado em 1948 em comemoração ao 10  aniversário da referida paróquia, que “... Geologicamente é formada essa furna por veios de água, pelo vento e quiçá pelo mar ou pelas águas da lagoa de Sombrio...” como que desvendando as transformações do nosso planeta. Isso nos faz considerar que a ação do mar foi fundamental na formação das furnas. Adiante veremos novos fatos que poderão atestar esta tese.

 

Ainda na publicação, o Pe. Raulino Reitz ocupou-se em descrever os agentes naturais da formação das furnas: “...Suponhamos uma elevação de arenito que termina dum lado por cortado de taimbé. As camadas de cima são endurecidas por qualquer agente físico, como seja, a vizinhança de uma rocha vulcânica em fusão, ou mesmo pela maior quantidade de sílica trazido em solução pela água. As camadas internas conservam a sua consistência primitiva. Qual o efeito que um veio de água produz no interior de tal elevação? Corrói forçosamente as camadas menos consistentes, sendo impotente contra as camadas exteriores endurecidas. Abre-se uma fenda. Enquanto a água contínua pelos séculos e milênios o seu trabalho, o vento se encarrega de aos poucos tirar grão de areia por grão e assim ambos esses factores vão formando as interessantes furnas na rocha arenítica...”
 

O complexo Furnas de Sombrio é formado por um conjunto de quatro grutas, a maior delas com dezessete metros de abertura e área total de 1.118 metros quadrados. Existe ainda uma quinta gruta, bem menor, que ainda se conserva inexplorada, ficando mais ao norte das demais, envolvida pela mata fechada.

A formação rochosa das furnas é composta pelo arenito triássico botucatu, de baixa porosidade (18%), o que atesta e evidencia o afloramento do aqüífero guarani, a maior reserva de água subterrânea do planeta.

De acordo com o Pe. Humberto Oenning, que aqui chegou em janeiro de 1946, até o final dos anos 40 e início dos anos 50, o interior da furna principal era repleta de estalactites e sua superfície constituía-se de grandes blocos de pedra e uma enorme quantidade de um lodo negro, além de ser o habitat natural de centenas de morcegos.

POVOAÇÃO  E EXPLORAÇÃO

Com a chegada a este local do imigrante português João José Guimarães, primeiro explorador e habitante da cidade de Sombrio, por volta do ano de 1830, inicia-se a história das furnas. Perseguido por índios Carijós, desde após a sua chegada a Desterro (atual Florianópolis), Guimarães também habitou o interior do atual município de Torres onde também foi  atacado pelos Carijós que mataram sua mulher em batalha. Do alto do Morro de Torres (onde havia a colônia que originou a cidade), avistou um frondoso espelho d’água, que se estendia por uma vasta extensão, propondo-se a explorá-lo (tratava-se da Lagoa do Sombrio).

Com uma jangada construída por ele mesmo, Guimarães aportou nas encostas do Morro das Furnas (segundo os mais antigos, aproximadamente onde hoje existe o Hotel Pousada das Furnas), onde posteriormente instalou-se com seus familiares. Um novo ataque dos Carijós aconteceu ocasionando a morte de um dos filhos de Guimarães. A partir daí, o desbravador decide se proteger de futuros ataques construindo uma fortaleza de pedra, com saída para a lagoa, que o pudesse salvar no caso de novos ataques.

Com esse objetivo, João José Guimarães, após adquirir as terras junto ao Estado em 1833, busca na localidade de Aldeia dos Anjos (Gravataí – RS), os jovens Luiz Antônio da Cunha e Serafim Antônio da Cunha para com suas habilidades de pedreiros, construírem uma casa de pedra que pudessem guarnecer a família Guimarães.

Passados alguns anos, os dois jovens acabaram por casar com as filhas de Guimarães formando seus núcleos familiares nas redondezas. Um deles, Luiz Antônio da Cunha construiu sua casa pouco mais ao sul do Morro das Furnas, próximo do caminho, caprichosamente sinuoso, usado pelos viajantes, tropeiros e habitantes de vilas próximas que por lá tinham de passar. Há pouco mais de cinqüenta anos atrás, esta estrada, que mais tarde tornou-se a BR 101, era ainda a mesma picada de carros-de-boi e passava bem em frente da entrada de maior gruta do conjunto que forma as Furnas de Sombrio.

Depois de Luiz Antônio da Cunha, sua filha Luíza Cunha, que casou-se com Eleutério Coelho, mas que tornou-se a matriarca de seus descendentes, ocupou a casa que era de seu pai e continuaram a observar a passagem de viajantes, tropeiros e suas comitivas, produtores de farinha de mandioca da região com suas mulas de carga, entre outros.

Nos anos que se seguiram a propriedade passou pelas mãos de vários donos até que por volta de 1940, foi adquirida por Manoel Valerim. Nos primeiros anos daquela década os Valerim construíram um pequeno restaurante para acolher os viajantes que por aqui passavam.

Manoel Valerim também preocupou-se em mandar fazer exames técnicos a respeito da lama negra encontrada dentro da furna principal e que alguns diziam ter poder medicinal. Foi coletado material e enviado para São Paulo e tempos depois um laudo atestava  tratar-se de uma composição de algas marinhas com propriedades aplicadas na dermatologia (tratamento de pele) – este fato reforça a idéia de que o mar possa ter coberto toda a superfície da região. Várias pessoas que vivem até hoje afirmam ter lido este laudo, mas o documento perdeu-se no tempo.

No final da década de 40 e início da década de 50 vieram para Sombrio os primeiros engenheiros do Governo Federal para a elaboração do projeto do traçado da atual BR 101. Cogitou-se a possibilidade de construir a estrada por trás do Morro das Furnas, mas os engenheiros optaram pelo traçado que existe até hoje. Foi nesta época que também foi feito o aterramento da parte interna da furna principal, que possibilitou que as pessoas pudessem entrar; os blocos de pedra foram retirados e as estalactites destruídas.

Até esta época as águas da Lagoa de Sombrio ainda margeavam as proximidades da entrada da furna principal. O Pe Raulino Reitz abordou sobre este aspecto em sua publicação histórica de 1948. “...Encantadora e vistosa furna se acha no ponto mais avançado da série de morros areníticos que percorre o sul do município de Araranguá. E’ sita a 2 kms, da Vila de Sombrio. Os arredores são admiravelmente belos e recordam saudades a todos que os viram. Amplo plano se estende ante sua boca, que beija as doces águas da lagoa de Sombrio...”

A pavimentação  asfáltica  da  rodovia chegou cerca de vinte anos mais tarde, no Governo Militar de  Emílio  Garrastazul  Médice,  mais  precisamente  em  1971, estando do mesmo jeito até hoje, ou até a duplicação.

O atual proprietário é Antônio Luiz Gonçalves, que mantém as condições das furnas o mais próximo possível do natural, evitando que novas alterações sejam feitas pelo homem, além das que já foram realizadas.
 


Restaurante das Furnas e uma das Caverna ao fundo


Lagoa de Sombrio

RELIGIOSIDADE  E FÉ

No final do século XIX e início do século XX, quando a família de Luíza Cunha habitava as imediações das furnas, alguns viajantes relatavam estórias de que teriam visto assombrações na entrada da gruta; outros afirmavam ter testemunhado o surgimento de bolas de fogo no interior da mesma. Estes fatos eram contestados por muitos que juravam nunca ter observado nada disso.

No entanto, esta poderia ser uma das razões que levou Manoel Valerim a colocar a primeira imagem de uma santa na entrada da gruta principal.

Para os religiosos o motivo se justifica por ser uma inspiração popular e religiosa da época. Contam que naquele tempo qualquer gruta era considerada um local propício para a colocação de uma imagem santificada como forma de louvor.

O que levou Manoel Valerim a colocar a primeira imagem de santa na entrada da gruta ninguém pode atestar com toda certeza, mas os efeitos disso são visíveis e multiplicaram-se ao longo dos últimos sessenta anos.

Atualmente ampliou-se muito o número de imagens dentro da furna principal, acompanhada de mensagens de agradecimento por graças alcançadas e dezenas de velas que são acesas por todos que visitam o local. Isto reforça a tese de que a inspiração religiosa popular possa ter sido a razão da colocação da primeira imagem.

De outra forma, mostra que a fé e a crença pessoais, conjugadas com a força divina, são capazes de fazer o homem alcançar seus objetivos e ultrapassar as mais duras dificuldades ou enfermidades.

Isso só a Deus pode ser atribuído e só ele poderá explicar.

O TESOURO ESPANHOL – HISTÓRIA OU LENDA?

Ainda no século XIX, quando a família Cunha ocupava as terras em torno do Morro das Furnas, conta uma história antiga (ou lenda), de que hospedou-se na casa de Luíza Cunha um espanhol, de nome ignorado, que misteriosamente teria aportado por lá.

Ocorre que, segundo o que contam os antigos, teria sido este espanhol um desertor das milícias de seu País e que teria ele roubado uma grande quantidade de ouro que deveria servir para o pagamento do exército espanhol que se encontrava no Rio Grande do Sul ou talvez no Uruguai. O que se conta é que ele teria enterrado esse tesouro nas redondezas do Morro das Furnas.

Alguns relatam a possível existência de uma carta enviado pelo espanhol desertor – que após ter retornado para seu país, fora  preso e na prisão a teria escrito – em que ele relatava ter enterrado o tesouro bem próximo das terras de Luiz Antônio da Cunha, pai de Luíza e avô de Abílio Cunha, para quem a carta havia sido entregue, isso entre 1910 e 1920.

Arlindo Cunha, sobrinho de Abílio e morador de Sombrio até os dias atuais, conta que seu tio teria até adquirido um equipamento para detectar metais, o qual teria sido utilizado na caçada àquela fortuna.

Outros moradores também teriam se dedicado à caça ao tesouro, mas nunca houve registros de que tenha sido encontrado. A carta, supõem-se, acabou em poder do Pe. João Retiz, pároco de Sombrio, entretanto após seu falecimento nunca mais foi possível localizá-la, ou sequer saber se existiu de verdade.

O fato é que o tesouro nunca foi encontrado, se é que existiu.

BIBLIOGRAFIA
FURNAS DE SOMBRIO
  -  Levantamento histórico elaborado por Marcial David Murara “Xixo”, escrito em 26 de Maio de 2000. Patrocinado por Rede Furnas Ltda, de propriedade de Antônio Luiz Gonçalves. O destino deste material é realizar trabalhos junto a escolas do município de Sombrio e região, com o objetivo de conscientizar a população a respeito da importância das furnas para o vida da comunidade.
BIBLIOGRAFIA: “PARÓQUIA DE SOMBRIO (Um Ensaio de uma Monografia Paroquial), Pe. Raulino Reitz. Seminário de Azambuja – Brusque – SC, 1947.
FONTES DE PESQUISA:  Agradecimentos aos Srs. Natálio Vignalli, Padre Humberto Oenning e Arlindo Cunha, que contribuíram com informações fundamentais dos tempos passados.
 

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www.sul-sc.com.br
By Brenner W. Cardoso